sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

O mundo secreto do INCONSCIENTE

Antes de ontem, caminhando pelo centro de Belo Horizonte, fui repentinamente capturado pela capa da revista Super Interessante deste mês. A imagem de um cérebro grande e vermelho e a palavra "INCONSCIENTE" fizeram-me parar, ler o subtítulo da matéria e, apesar do preço, levar um exemplar. Com um tal "novo inconsciente" no ar -- ou bem amarrado nos labirintos do cérebro --, eu não poderia perder a chance de escrever uma resenha crítica e falar um pouco sobre um dos maiores construtos da psicologia.
 

O novo inconsciente 

Há mais de um significado para a palavra "inconsciente", e a matéria da Super (Santi & Lisboa, 2013) fez referência a dois deles. Um conceito mais genérico, aceito por grande parte dos psicólogos, designa como "inconsciente" qualquer processo psicológico a que o indivíduo não tem acesso ou que ocorre sem que ele perceba. Enquanto estamos aprendendo a dirigir, por exemplo, ficamos atentos a e seguimos cada instrução que nos é dada, e executamos cada movimento com bastante cautela. À medida que as coisas vão dando certo, passamos a agir sem muito planejamento, e aos poucos conseguimos ao mesmo tempo alterar a frequência do rádio e conversar com o passageiro. Em outras palavras, chega um momento em que naturalmente nos comportamos no "modo automático", podendo nos empenhar em outras atividades enquanto inconscientemente dirigimos, dançamos ou digitamos.

O outro conceito abordado na matéria é mais controverso. A existência do inconsciente, "entendido como um pedaço da mente dotado de vontades que [escapam] ao controle consciente" (p. 40), já era discutida desde o Iluminismo. Todavia, Sigmund Freud foi quem transformou essa e outras ideias em uma teoria e num conjunto de técnicas: a psicanálise. Como "uma prisão de segurança máxima" (Gay, 2012), no inconsciente psicanalítico estariam trancados ou recalcados nossos traumas de infância. Esse conteúdo traumático, que eventual e mascaradamente apareceria em lapsos, brincadeiras e nos sonhos, seria a verdadeira raiz do sofrimento humano. Hipótese profunda, não acham?

Ao longo da matéria, foram descritos alguns estudos neurocientíficos que respaldariam a existência do(s) inconsciente(s). Na verdade, o advento dessas pesquisas estaria dando uma nova cara a essa entidade. O "novo inconsciente", como alguns neurocientistas o vêm chamando, seria estudado por uma abordagem que "propõe uma explicação puramente neurológica para o lado oculto da mente" (p. 40).

Mas explicar fenômenos psicológicos por processos neurológicos não é uma tarefa simples. Vejamos as seguintes afirmações:

  • "Seu cérebro consciente não enxergava mais nada. Mas o inconsciente dele ainda conseguia ver -- e, mais do que ver, julgar os rostos das pessoas" (p. 38);
  •  "[...] o seu inconsciente trabalha nos bastidores durante o papo, vasculhando o seu vocabulário e abastecendo o consciente para ajudar você a se expressar" (p. 39);
  •  "[...] seu inconsciente se encarrega de transformar em ideias os sons que estão saindo da boca dela" (p. 39);
  •  "O cérebro é abastecido pelos olhos, ouvidos e outros sentidos, e o inconsciente traduz tudo em imagens e palavras" (p. 39);
  • "O analista não conseguia perceber nada de diferente nas imagens, mas o inconsciente dele, sim" (p. 45).

Em suma, afirma-se que o inconsciente enxerga, julga, vasculha, percebe e traduz estímulos em ideias, imagens e palavras. Mais que isso, propõe-se que o inconsciente ocupa cerca de 95% do cérebro, o que quer dizer que 95% dos comportamentos descritos acima são executados... bem, por uma espécie de "cérebro inconsciente". Note que os processos neurais não estão explicando o inconsciente: eles são o (novo) inconsciente.

Eu não vejo problema na ideia de que muitos comportamentos de um indivíduo ocorrem sem sua percepção ou sem que ele conheça suas causas. Entretanto, as coisas ficam estranhas quando termos apropriados ao indivíduo são atribuídos a uma parte desse indivíduo. A não ser que se dê significados diferentes a esses termos, não faz muito sentido dizer que o cérebro ou o inconsciente enxerga, julga, vasculha, percebe e traduz. Vou utilizar o caso da "visão cega" para demonstrar esse problema lógico.

Embora indivíduos que apresentam "visão cega" (ou blindsight) sejam completamente cegos, eles podem intuitivamente distinguir com certa eficácia faces amigáveis de faces hostis (um bom exemplo de como podemos responder a estímulos visuais inconscientemente). Na matéria, diz-se que a percepção e o julgamento dessas faces são realizados pela área fusiforme -- uma parte do novo inconsciente --, e não pelo indivíduo. Mas quem de fato está percebendo e julgando -- ou quem está nomeando uma face como amigável ou hostil -- é o indivíduo, e não uma área de seu cérebro! Ninguém aceita a velha desculpa "Não fui eu, foi a minha mão", e ninguém diria "O motor do meu carro é muito veloz" em vez de "O meu carro é muito veloz". Cada uma dessas coisas pode estar envolvida ou relacionada ao julgamento, à agressão ou à velocidade, mas isso é diferente de dizer que a área fusiforme julga, a mão agride e o motor é veloz. Mesmo que consideremos 100% do bolo cerebral, nenhum termo psicológico é perfeitamente aplicável ou compreensível sem que se leve em conta a dimensão do indivíduo (suas ações, suas emoções e/ou seus pensamentos). Por isso, o comportamento dos neurocientistas (e não de seus cérebros!) de tomar a parte pelo todo é uma falácia -- especificamente, é a falácia mereológica da neurociência (Bennet & Hacker, 2003).

Postular o sujeito cerebral (ou o novo inconsciente) suscita uma outra questão interessante. Logo na capa da revista, afirma-se que o inconsciente "controla quase tudo o que você faz". Eu não duvido que certos processos inconscientes estejam por trás do comportamento, mas não parece ser uma boa estratégia tomá-los como o ponto de partida de nossas explicações. Se admitirmos que o ambiente controla nosso comportamento, somos contemplados pela possibilidade de o manipularmos. Contudo, se formos simplesmente controlados por energias e mecanismos de uma entidade oculta, o inconsciente, o que podemos fazer? Ora, os processos inconscientes não podem ser autodeterminados, o que resulta em podermos controlá-los -- e controlar o comportamento como um todo -- através da manipulação de variáveis ambientais.(1) A propósito, e como esclarecerei no próximo tópico, é possível que essas variáveis expliquem a maior parte dos -- senão todos os -- fenômenos cujas causas Freud atribuíra ao inconsciente.

Sigmund Freud (1856-1939)
Mas eu não conheço a teoria freudiana o bastante para criticar sistematicamente suas teses. O que ficou claro para mim é que parte do subtítulo da matéria -- "As últimas descobertas da ciência [...] confirmam a principal teoria de Freud" -- foi bastante exagerada. Explico. Num estudo dirigido por ninguém menos que Eric Kandel, verificou-se que o núcleo basolateral da amígdala respondeu a faces de medo que piscavam rapidamente diante dos olhos dos participantes. Como eles não perceberam que os estímulos do experimento se tratavam de faces, concluiu-se que aquelas "imagens rápidas estimulavam diretamente o inconsciente (p. 42)" (ou emoções inconscientes), e que isso seria uma "comprovação neurocientífica de uma teoria central da psicanálise" (p. 42). A teoria diria que "a interpretação inconsciente de coisas negativas é a fonte de muitas aflições humanas" (p. 42), mas não ficou claro se os participantes realmente ficaram aflitos durante o experimento -- e ficar aflito significa bem mais que ter uma região do cérebro ativada. Mesmo que os participantes tenham alegado certo grau de aflição, a tese central de Freud certamente não diz respeito ao breve incômodo gerado por faces hostis! O apelo da matéria é tão ruim quanto sugerir que a história da Arca de Noé é verdadeira em função da constatação de que, em épocas remotas, certas costas continentais sofreram grandes alagamentos. É necessário mais que indícios indiretos para que uma tese seja comprovada (ou para que uma hipótese resista à verificação). Por isso, eu não vejo razão na conclusão de que o pai da psicanálise tinha razão.

O que conhecemos do inconsciente?

O inconsciente não é uma coisa, nem é um lugar ou uma parte de alguma coisa. Coisificar o inconsciente não me parece um bom começo para uma linha de pesquisa interessada em "comportamentos inconscientes".

A crença no inconsciente psicanalítico parece ser justificada pelo fato de que pouco sabemos sobre a causa de nossos comportamentos. Por exemplo, ficamos surpresos quando trocamos o nome de quem conhecemos bem e quando notamos que nossas reações são desproporcionais a algumas situações. Tudo isso pode envolver certo aspecto de "inconsciência", mas isso não implica que compreender esses comportamentos requeira explorar um lado oculto da mente (seja lá o que isso for).

Há alguns meses, venho notando que a maior parte dos lapsos verbais (cujas causas são comumente atribuídas ao inconsciente) pode ser explicada por eventos que os antecedem -- um fenômeno bem estudado e intitulado efeito de priming. Em uma reunião em que estive presente, uma fonoaudióloga apresentou-se espontânea e vergonhosamente como sendo nutricionista. A causa de seu comportamento não estava nas entranhas de sua mente, e sim no comportamento de duas ou três de suas colegas nutricionistas, que tinham acabado de se apresentar. Para os que não notaram o que aconteceu antes do lapso da fonoaudióloga, seu comportamento poderia erroneamente sugerir um desejo oculto de fazer parte da categoria profissional de suas colegas.(2)

Mas esses "desejos ocultos" podem existir! Quando criança, eu me queixava eventualmente de dores e indisposições. A maior parte desses sintomas era real, mas eu costumava exagerá-lá em tempo e intensidade. Embora eu não percebesse na época, minhas queixas faziam com que minha mãe ficasse por perto, dando-me mais atenção e carinho. Em outras palavras, eu era inconsciente da -- ou eu desconhecia a -- relação entre minhas queixas e os cuidados de minha mãe, e só recentemente eu desocultei, por ter revelado a ela, meu desejo consciente de ser um pouco mais bajulado. Viram? Certos "desejos ocultos" podem existir...

Nos casos supracitados, os indivíduos desconheciam a(s) causa(s) de seus comportamentos, e eles agiram "inconscientemente" apenas nesse sentido. Como eu procurei demonstrar, o que havia para ser identificado ou conhecido não estava em algum lugar secreto da mente, e sim dizia respeito a situações ambientais indutoras (caso da fonoaudióloga) e/ou mantenedoras (meu caso) daqueles comportamentos. Na medida em que identificamos essas variáveis, não precisamos mais jogar a "responsabilidade explanatória" para o suposto mundo secreto do inconsciente.

Do homem das cavernas ao homem dos jalecos, tendemos a inventar entidades, forças e mecanismos capazes de atribuir sentido aos eventos cujas causas desconhecemos. Essas invenções podem ser relativamente úteis nos estágios iniciais de uma investigação, mas é importante que elas sejam suscetíveis à verificação empírica, ou poderão resultar em dogmas. Minha honesta impressão é de que o inconsciente psicanalítico foi uma tentativa de explicarmos, a respeito do comportamento humano, muito do que nos era desconhecido. Eu sou razoavelmente adepto à noção mais genérica de inconsciente, mas não vejo como sua versão psicanalítica pode, nos dias de hoje, nos ajudar em alguma coisa. Espero que meus colegas freudianos e lacanianos não interpretem minha postura cética como uma "resistência inconsciente". Entretanto, desde que me apresentem razões irresistíveis (lógicas e empíricas), mudarei de ideia sem sequer perceber.


Notas


(1) Para reflexões sobre a limitação de se explicar fenômenos comportamentais exclusivamente por variáveis internas (mentais e encefálicas), ver "O cérebro e o behaviorismo radical" (Gontijo, 2012).

(2) Esse fenômeno é facilmente reproduzível através de uma brincadeira bem conhecida. Peça que alguém diga "branco" rapidamente e por uns cinco segundos ("Branco, branco, branco, branco, branco, branco..."). Posteriormente, pergunte "O que a vaca bebe?". Boa parte das pessoas dirá leite, que é branco, e não água.

Referências

  • Bennett, M. R., & Hacker, P. M. S. (2003). Fundamentos Filosóficos da Neurociência. Lisboa: Instituto Piaget. 
  • Gay, P. (2012). Uma Vida para o Nosso Tempo. São Paulo: Companhia das Letras. (Citado na matéria resenhada.)
  • Santi, A., & Lisboa, S. (2013). O mundo secreto do INCONSCIENTE. Super Interessante, ed. 315. São Paulo: Editora Abril.

55 comentários:

  1. É por esses discursos populares acerca do cérebro e mente que, ironicamente, digo que estamos na época, não mais do dualismo, mas do, como devemos chamar isso?... "trialismo" talvez... é uma mente-coisa, dentro de um cérebro-independente-do-organismo, que por sua vez ocupa nosso humilde corpo. E tem gente que compra a ideia...

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    1. É curioso perceber como nossos clientes já vem dizendo "meu cérebro" em vez de "minha mente", mas eu até acho que seja importante haver um termo simples que faça referência ao comportamento privado. O complicado é quando eles -- e certos profissionais -- atribuem ao mundo interno a "culpa" pelo sofrimento (ou o "mérito" pela felicidade).

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  2. esse cara vc é um chato de galochas e confuso em termos conceituais, muito me admira que esteja fazendo mestrado.

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    1. Se quiser, posso tentar esclarecer alguns conceitos para você, Anônimo.

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    2. Ih...esse aí deve ser freudiano ou lacaniano. haha

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  3. Não terminei nem a graduação e achei o texto bem claro..

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  4. Muito bom o texto Daniel. Não desconsiderou o aspecto biológico e explicou de forma clara o seu ponto.

    No qual eu concordo completamente.

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  5. Por que é tão difícil se aceitar o já óbvio que os comportamentos podem ser explicados por variáveis externas E internas??? Por que ainda há essa "disputa" entre Só variáveis externas OU Só variáveis internas??? Não entrndo mesmo, essa exclusão!!!
    Daniel, parabens pelo belo texto!!!

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    1. Excelente questionamento, Thais! Eu já vinha planejando escrever um texto a respeito disso, e agora fiquei ainda mais motivado a fazê-lo. Espero em breve poder discutir isso com os colegas.

      Obrigado!

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  6. Olá Daniel, meu nome é Flávio, sou amigo do Marcelo Zanotti, e vim parar aqui por ele ter curtido sua resenha e eu tê-la visto no facebook. Gostaria, se não houver problema quanto a isso, comentar algumas questões a respeito dos últimos parágrafos de seu texto. Inicialmente, porém, gostaria de fazer um comentário sobre a reportagem, que li há alguns dias: A relação que ela de fato tem com a teoria freudiana é mínima, e essa relação se faz simples e meramente pelo uso do termo "inconsciente", que na reportagem é utilizado como se o utiliza no senso comum (coisas as quais eu não sou consciente). Se Freud tivesse trabalhado apenas com essa ideia, ele não teria construído sua teoria nem sua prática.
    Notei que nos exemplos que você citou, você partiu de um princípio de causalidade externa, a categoria que você se utiliza para analisar os fenômenos é o próprio comportamento em sua relação com outros comportamentos. Se você parte desse princípio antes de conhecer a psicanálise, realmente, você está correto, sempre estará. Afinal, quem de fora vê o que há de dentro sempre tem seus conceitos formados, nunca entende o que acontece ali. É alguém que quer aprender uma língua sem conhecer sua cultura, seu modo de funcionamento, pensando a partir de sua própria língua. Você denuncia isso ao dizer: "Mas eu não conheço a teoria freudiana o bastante para criticar sistematicamente suas premissas." Já parte do princípio da crítica. Logo, não vai fazer outra coisa senão isso.
    Os exemplos que você utilizou, da fonoaudióloga e de você quando criança, foram interpretados por um observador externo, você, que cria relações entre os fatos que observa. Primeira coisa, a prática psicanalítica não é uma prática de observação, mas de escuta. Freud não observou (estou considerando no sentido estrito de "ver") o inconsciente acontecendo e analisou seus processos. Isso, quem está fazendo é o pessoal da reportagem, tentando localizar o inconsciente. Freud chamou de inconsciente a determinados fenômenos que pareciam destoar de uma certa normalidade, principalmente os fenômenos de linguagem. Lapsos da fala, lapsos de escrita, lapsos de memória, esquecimentos, narrativas de sonhos etc, passando para outros fenômenos, como a confusão de um sujeito frente a determinado comportamento que realiza.
    Como você, eu poderia analisar o fenômeno (caso da fono, p. ex.) a partir dos comportamentos observáveis, dos fenômenos que aconteciam. Mas minha análise, em hipótese alguma, responde àquilo que a fono vive. Se eu digo isso, eu interpreto algo a partir de meu ponto de vista, quando na verdade a questão é por que cargas d'água ela falou aquilo, ela, não eu, nem eu em seu lugar, nem eu compreensivo entendendo o que se passa com ela, mas ela, como mulher, fono, seja lá o que, o que lhe passa.
    A suposição de Freud é a de que esse erro implica um querer. Há um jogo de causalidade, é certo. Pode ser diferente da teoria comportamental, não tenho conhecimento suficiente para dizê-lo. O fato é que, independentemente da nossa suposição, a questão seria ouvir o que a pessoa ali produzia, sua relação com o suposto erro.
    Ele então passou a formular isso que você falou bem, inconsciente é uma palavra batida, todos falam, o que foi feito por Freud foi dar consistência e rigor ao conceito. Inconsciente não são apenas coisas não conscientes (isso é o senso comum), são processos psíquicos (não cerebrais, mas relacionados ao cérebro) que funcionam por si mesmos à revelia da consciência.
    Peço desculpas pelo tamanho da exposição. Escrevi muito menos pela crítica e mais para apontar uma diferença com relação ao que você escreveu; não pretendo criticar a teoria comportamental, ganho nada com isso. Preferi apontar que a categoria que você, e os demais colegas da área (não sei se posso generalizar), utilizam para analisar o fenômeno é outra, e produz outros efeitos, servindo pouco para analisar as categorias psicanalíticas, apenas os fenômenos cotidianos. Não acho que sejam avessas, não acham que sejam complementares.
    É isso.
    Obrigado.

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    1. Muito obrigado pelo comentário, Flávio! Gostaria de poder discutir alguns trechos interessantes que você trouxe, mas estou saindo de viagem neste exato momento. Que tal nossa conversa esperar até depois do carnaval? De toda forma, acho que você tocou num ponto que a Thais e o Daniel Grandinetti (pelo Facebook) sublinharam, e isso me faz ter ainda mais vontade de escrever um texto a respeito. Trata-se basicamente das causalidades interna e externa, e da complexa diferença entre as perspectivas objetiva e subjetiva.

      Um abraço, e bom carnaval a todos!

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    2. Não sei qual a proposta que pretende seguir em sua discussão sobre causalidade externa e interna e perspectivas objetivas e subjetivas, mas tenho receio quanto ao que esse tipo de discussão pode levar como a ideia de antinômico equivalente a complementar e/ou como contrário. O que suponho mais importante nisso que digo é que o behaviorista tem como princípio teórico a categoria do comportamento, abordando os fenômenos a partir desse viés (não é a toa que a fala venha a ser chamada de comportamento verbal). A psicanálise tem como princípio o conceito do inconsciente, situado como participante do processo de linguagem, da própria categoria da linguagem, abordando os fenômenos da linguagem como relacionados ao conceito de inconsciente.
      Não sei se um ou outro é externo/interno, objetivo/subjetivo. "Linguagem" e "comportamento" não são categorias antinômicas, contrários e/ou complementares. São categorias diferentes.

      Acho que o que escrevi pode ser resumido assim. Existe um corte epistemológico.

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    3. Flávio,

      Se uma abordagem explica o comportamento por uma variável subjetiva/mental (inconsciente, crenças, inteligência etc.) ou cerebral, eu a defino como "internalista". Se outra abordagem faz aquilo por uma variável ambiental, "externalista". Poder-se-ia dizer que a psicanálise e o cognitivismo são internalistas, e o behaviorismo, externalista. Contudo, as coisas certamente são menos simples do que parecem, já que o psicanalista pode falar de uma situação traumática (relação do sujeito com seu ambiente) e o behaviorista, de regras e estados (privação e saciação, p. ex.). Como a Thais comentou, parece correto dizer que há causas internas e externas para o comportamento. O que acontece é que cada abordagem dá uma ênfase diferente à explicação. Assim, mesmo que o behaviorista faça referência à privação e às regras, ele sublinhará os processos ambientais que os geraram (seus determinantes últimos). O psicanalista, ao falar de um sintoma produzido após uma cena traumática, centralizará sua hipótese nos processos que configuram o aparelho psíquico. Por isso, acho que há certa utilidade (mesmo que didática) em discriminar as "perspectivas explicativas" internalista e externalista.

      A diferenciação entre "objetividade" e "subjetividade" diria respeito basicamente à "perspectiva descritiva". Desde cedo, aprendemos a diferenciar o ambiente exterior/público do ambiente interior/privado -- ou o ambiente objetivo do ambiente subjetivo. Criamos termos e conceitos para objetos e eventos públicos, a que todos têm acesso, e criamos termos e conceitos para objetos e eventos subjetivos, a que só o próprio sujeito tem acesso. Árvore, pedra e macaco são objetos públicos, "reais", e crença, desejo e raciocínio são entidades ou processos subjetivos, "mentais". Na interação com o outro, INFERIMOS suas crenças, desejos e raciocínio, embora só tenhamos acesso ao seu comportamento público (DEDUZIMOS os primeiros dos segundos). A explicação de um comportamento público/observável pode ser feita por variáveis objetivas, subjetivas ou -- como Thais comentou -- ambas. Se alguém afirma "O uso de cafeína acelera o raciocínio", há tanto uma variável objetiva (ingestão de cafeína) como subjetiva (raciocínio) em jogo. Como diria meu amigo Grandinetti, a COMPREENSÃO do comportamento quase sempre requer o uso de termos subjetivos. Mas, como aspirante a pesquisador, devo lembrar que a VERIFICAÇÃO de uma hipótese quase sempre requer a manipulação de variáveis objetivas. Embora sejam perspectivas descritivas distintas, uma não exclui a outra.

      Enfim, eu acho que boa parte das discussões e mal entendidos da psicologia estejam enraizados nessas perspectivas aí, sejam eles do âmbito explicativo ou descritivo. Se essas coisas ficarem claras (e eu venho tentando aos poucos entender isso), acho que um dia poderemos nos entender melhor.

      O que acha, Flávio?

      Abraço!

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    4. Acredito que entendo algumas das explicações que você me dá, outras, referentes, p. ex., à relação entre objeto e conceito não sei se concordo, principalmente porque você se utiliza de paradigmas diferentes. Do meu ponto de vista, a tentativa que você faz de delinear o lugar de cada uma não me parece ter serventia, tampouco acho que serve a algum outro psicanalista. Quero dizer que se eu falo que trabalho com eventos internos e você trabalha com externos isso me serve para nada, porque isso não me ajuda a pensar os problemas que eu me coloco.

      É esse o sentido que eu estou tentando apontar. Alguns debates são interessantes, mas alguns, não sei qual o seu sentido, para que servem.

      Não sei se consigo me fazer entender. Minha fala tem tido o intuito de apontar que, antes de tentar entrar numa discussão que de antemão serve menos para uma reflexão nova que para descrever, criar uma outra categoria, seria melhor suportar a diferença, respeitar o trabalho e seguir em frente.

      Quanto aos problemas da psicologia, acredito que estejam mais voltados para a dificuldade em manter uma posição de respeito de uma abordagem para com a outra.

      Colocar a psicanálise e a cognitiva numa categoria mentalista e o behaviorismo numa categoria externalista tem serventia para o trabalho de alguma dessas abordagens e/ou permite um conforto de categorização que o cientista tem ao conseguir agrupar seus objetos em lugares que ele possa olhar de um lugar distanciado?

      Quando fiz meu primeiro comentário, meu incômodo já eram 1) de uma revista de suposta divulgação científica falar de um campo sem nitidamente nunca ter lido algo a respeito, utilizando o termo "inconsciente" a partir de uma noção do senso comum. Nesse caso, sei que behavioristas tem seus problemas com os termos "controle", "estímulo"; sempre são lidos foram do contexto. e 2) de ver uma matéria discutindo outra matéria a partir de uma posição que me parece parecida à segunda, de fora, sem se propor a realmente conhecer a área.

      De qualquer forma, lendo os seus comentários, tenho ficado com uma mesma questão:
      Eu posso supor que sua fala implica uma tentativa de diálogo entre teorias? Se sim, para que?

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    5. Flávio,

      "Alguns debates são interessantes, mas alguns, não sei qual o seu sentido, para que servem."

      As definições que eu trouxe são uma tentativa de abstrair características básicas que definem diferentes modalidades de explicação do comportamento. Acho isso importante para compreendermos como raciocinamos acerca do comportamento, para tentarmos fazer possíveis sínteses e para arquitetarmos maneiras mais efetivas de lidar com nosso(s) objeto(s) de estudo.

      Essa tarefa não é nada fácil, e com certeza encontraremos dificuldades maiores no terceiro ponto. Para que tenhamos melhores meios de compreender, prever e alterar o comportamento humano -- ou para que as práticas da psicologia sejam mais efetivas --, precisamos testar e comparar técnicas e teses que estruturam as abordagens da psicologia. Eu concordo com você que precisamos ter respeito para com os colegas de abordagens distintas, mas isso não significa que devemos deixar a psicologia seguir se ramificando, se segregando em correntes cada vez menos comunicáveis e dogmáticas. Eu acredito que a união faz a força, e eu só vejo a possibilidade dessa união através do movimento das práticas psicológicas baseadas em evidências.

      Sobre seu segundo incômodo, estou aberto a tentar compreender a psicanálise, e vou pegar partes de seu comentário sobre o lapso da fonoaudióloga para tentar dar mais alguns passos.

      "Se eu digo isso, eu interpreto algo a partir de meu ponto de vista, quando na verdade a questão é por que cargas d'água ela falou aquilo [...] A suposição de Freud é a de que esse erro implica um querer. [...] a questão seria ouvir o que a pessoa ali produzia, sua relação com o suposto erro."

      O motivo por que ela falou aquilo pode ser em parte explicado pelas circunstâncias, não acha? A nota número 3 do meu texto ilustra uma maneira simples de demonstrar isso. Desvendar essas circunstâncias faz parte de compreender a relação do indivíduo com seu erro. Poderíamos listar outros possíveis fatores envolvidos no lapso, como a distração ou a repetição privada do comportamento verbal das colegas, mas eles não excluem a provável determinação do ambiente antecedente (seria um fenômeno multideterminado).

      Você sugere que os erros supostamente implicam um querer. O que exatamente você quer dizer com isso?

      Abraço!

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    6. Agora ficou mais claro seu posicionamento, que é divergente do que eu sustento e, ao meu ver, impõe um limite claro. Esse limite diz respeito à consideração da profissão de psicólogo. Sua posição segue um caminho de unir a psicologia, e, me parece, seguirá um rumo que eu não me interesso.

      Quanto a isso, lembro-me de um texto de George Canguilhem, uma apresentação, na verdade, de nome "O que é a psicologia?", em que ele discute a tentativa do psicólogo Daniel Lagache, que tenta, em 1947, constituir uma unidade da psicologia, definida como "teoria geral da conduta, da psicologia experimental, da psicologia clínica, da psicanálise, da psicologia social e da etnologia". (a palavra "síntese" tem sua importância...) (citação do texto, pode ser achado na internet, se quiser). Seguindo Canguilhem em sua discussão, vê-se que esse tipo de proposta tende a levar ao pior, e ter como sustentação um peso compreensivo pouco efetivo.

      Faço lembrar que sua proposta se fundamenta numa certa episteme, que é o fato da psicologia ser considerada como uma ciência do "comportamento", e gostaria de apontar a não neutralidade no uso do termo, pois sua base de fundamento é o behaviorismo, o crivo, como eu havia apontado antes.

      Outra situação que eu gostaria de lembrar é que em momento algum a psicanálise pode ser considerada como um campo subordinado à psicologia, mas definitivamente a psicologia se apropria desse conhecimento. Acredito, inclusive, e sempre falo isso, que essa relação também existe entre a psicologia e o behaviorismo.

      Ainda uma última característica é o fato de dificilmente se encontrar behavioristas discutindo textos de gestaltistas ou de outras linhas, sempre havendo um interesse considerável pela psicanálise, talvez pelos dois campos sustentarem posicionamentos a partir de perspectivas rigorosas, consistentes e baseadas em princípos e diretrizes que fundamentam leituras, explicações e intervenções sobre fenômenos de maneira tal a desenvolver e constituir solidamente seus domínios.

      A psicanálise segue seu rumo sem manter-se presa à psicologia. Acredito que a psicologia também tem seguido seu rumo sem manter-se presa às abordagens teóricas das chamadas clínicas (minha dissertação apontou isso). Nota-se o trabalho do CFP em promover manuais gerais, reflexivos etc sobre o trabalho do psicólogo em diferentes contextos.

      Sobre categorização das abordagens, caso tenha interesse, sugiro livro "Matrizes do pensamento psicológico" de Luiz C. M. Figueiredo. Talvez ajude. É a ciência versus o romance.

      Por fim, gostaria de dizer que eu particularmente me interesso pelo diálogo, mas está claro que há esse limite que, não acredito, a princípio, que alguém venha a ceder.

      Obrigado.

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    7. Flávio,

      O que eu visualizo não é exatamente uma união das abordagens, e sim dos psicólogos em torno de uma forma mais consistente de atuar/pensar sobre o comportamento humano. E, quando eu falo "comportamento", estou abarcando eventos da esfera afetiva/emocional, intelectual/cognitiva e os diretamente observáveis, como os reflexos e a conduta propriamente dita. Mais especificamente, estou falando da RELAÇÃO desses eventos com o mundo. Penso que a abrangência desse conceito, que de fato faz parte da doutrina behaviorista radical, não deixa escapar qualquer fenômeno estudado pelas demais abordagens, e por isso eu o considero adequado.

      É verdade que as correntes seguem se desenvolvendo de forma razoavelmente independente, e eu entendi que você gosta que as coisas fluam assim. Que benefícios você vê com as coisas seguindo dessa maneira? Por que você acha que as coisas seriam piores caso tentássemos estabelecer algumas diretrizes gerais, como seria o caso de instituir o método científico e o uso de práticas baseadas em evidências?

      Um abraço!

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    8. Ei cara, eu respeito a posição que você sustenta. Não vou dizer para não fazer, é uma causa que você sustenta, deve ter pessoas que compartilham, pode construir um bom lugar. Eu só acho que a visada que você tem, por mais interessante que possa parecer, carrega o peso teórico que você tem por agrado e isso pode acarretar alguns problemas. A palavra "comportamento", tem dupla inserção: é palavra do senso comum e é conceito científico, mas eu sempre acho que, por mais que você tente falar comumente, você impõe sutilmente o conceito.

      Você tinha perguntado antes:
      "Você sugere que os erros supostamente implicam um querer. O que exatamente você quer dizer com isso?".
      Lembra-se?

      Vou apontar algumas coisas na pergunta. Primeiro, eu não sugiro, não estou falando de uma sugestão a pensar, estou falando de uma suposição de fato, baseada na escuta de certo fenômeno (aponto essa palavra "escuta" como importante aqui). Mais, não sou eu, é todo o campo psicanalítico, afinal, essa conversa não é apenas de dois homens, dois psicólogos, é de dois campos...

      Lembra da fono que falou errado? Do ponto de vista que eu levo, você fez uma análise que retira do fenômeno o lugar desejante da pessoa, porque sua análise expõe uma casualidade da sua teoria: havia um conjunto de comportamentos, eles se relacionam, alguém falava disso antes, a mulher falou depois, beleza, tá entendido, justificado o "erro". Pronto, você mostrou que não é psicanalista, rsrs.

      Sobre o que você falou, de usar o conceito "comportamento" porque ele "não deixa escapar qualquer fenômeno estudado pelas demais abordagens", bom, não sei se precisa comentar, eu estou aqui pensando como essa frase parece fechar uma possibilidade de diálogo, porque, pense por essa perspectiva que vou colocar, se o seu conceito não deixa escapar qualquer fenômeno que nenhuma abordagem estuda, ele não precisa de nenhuma abordagem dialogando, basta a sua, não?

      Eu busco indícios do inconsciente pela via das suas formações (lapsos, sonhos, ditos espirituosos, alucinações, angústia etc). Se você perceber, eu já estou relacionando fenômenos e conceito. Não dá pra relacionar com o "comportamento"; não faz sentido, não se articula. Essa articulação me serviria a que? eu entenderia os lapsos como mandos disfarçados? tatos? etc? pronto, acabou a psicanálise, virou behaviorismo.

      A perspectiva do método científico e das práticas baseadas em evidências também é questionável, mas eu aceito o que você fala, porque faz o movimento de tentar dar rigor, consistência, concisão ao trabalho do psicólogo, mas eu só gostaria de apontar que a psicologia tem Freud na Áustria, Skinner nos EUA, Fritz nos EUA, Moscovici na França, Vigotski na Russia, Piaget em Genebra, Silvia Lane em São Paulo, Lacan na França etc. Quer colocar tudo conversando a partir de um mesmo conceito? E os outros conceitos? E as práticas sustentadas por essas teorias?

      Vou deixar um exemplo e gostaria de saber sua opinião a respeito, tudo bem? Noutro comentário, caso se interesse, eu comento. Tentarei narrar o mais fielmente possível sem falar das intervenções e desenlaces, apenas o fenômeno até a primeira intervenção, ok?

      Uma estagiária de psicologia hospitalar, com abordagem comportamental, faz uma supervisão no hospital com dois supervisores, um cognitivo e outro psicanalista. Todos são psicólogos e a proposta do estágio é em psicologia hospitalar. Ela então narra uma situação que, particularmente, deixou-lhe desconfortável: Atendeu um rapaz de 24 anos que ficou tetraplégico, com dificuldades para falar e possivelmente tem diagnóstico de câncer. Decide falar do caso dizendo que teve muita dificuldade em atendê-lo, em escutá-lo, em pensar como intervir. Alguma coisa a incomodava. Então um dos psicólogos lhe perguntou: "O que te incomodou?". Ela respondeu: "É porque nunca imaginei um menina... menino nessa situação".

      Obrigado.

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    9. Flávio,

      "[...] se o seu conceito não deixa escapar qualquer fenômeno que nenhuma abordagem estuda, ele não precisa de nenhuma abordagem dialogando, basta a sua, não?"

      Eu simplesmente não conheço outra palavra que enxugue tudo o que quero dizer... Eu poderia dizer "fenômeno psicológico", mas isso se restringiria a uma das duas perspectivas descritivas possíveis -- a "subjetiva", deixando de lado a "objetiva". Por mais que "comportamento" seja um termo central para o behaviorismo, ele é o único que tenho em mãos para representar o conjunto de fenômenos passíveis de estudo na psicologia.

      "Não dá pra relacionar com o 'comportamento' [...] Essa articulação me serviria a que? eu entenderia os lapsos como mandos disfarçados? tatos? etc?"

      Podemos falar simplesmente de "comportamentos inconscientes", que seriam aqueles cuja causa (ou ocorrência) é desconhecida pelo indivíduo que o apresenta.

      "Quer colocar tudo conversando a partir de um mesmo conceito? E os outros conceitos? E as práticas sustentadas por essas teorias?"

      Boas perguntas, Flávio! Certa vez, David Hume disse que, desde que concordemos sobre os fatos, não importa muito que termos utilizamos para os representarmos. Psicanalistas, cognitivistas e behavioristas às vezes falam das mesmas coisas, mas com termos diferentes. Se os pudermos "traduzir", as coisas se descomplicam. O principal, contudo, não seria tentar sintetizar tudo em uma só abordagem de poucas teses e com uns poucos e bons conceitos, e sim utilizarmos conceitos operacionalizáveis e engendrarmos hipóteses verificáveis (é por isso que, no mais das vezes, eu me dou bem com os cognitivistas). Com esse simples princípio em mente, creio que as coisas tomariam um rumo bastante promissor.

      Sobre o caso da estagiária hospitalar, imagino que você esteja dando ênfase ao seu lapso. Bom, inicialmente eu a perguntaria algo como "Você se sensibilizou bastante, então, e não soube o que ou como exatamente dizer ou perguntar algo a ele?". Eu agiria assim para ajudá-la a se expressar, a se entender e descrever melhor qual tinha sido sua dificuldade. Se seu lapso estivesse relacionado a algo significativo, creio que esse algo apareceria posteriormente. (Posso sugerir hipóteses simples sobre o lapso, mas vou aguardar sua resposta.)

      Abraço!

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    10. (suspiro). Estou pensando no quão delicada é essa conversa...

      Uma diferença importante: Quando você diz que não encontra outra palavra para enxugar tudo o que quer dizer, você já está ocupando uma posição diferente do lugar de uma psicanálise. Você está tentando, na verdade, não enxugar, mas condensar em uma palavra todos os outros conceitos.

      Quando você diz que os fenômenos estudados pela psicologia são todos comportamentos, isso já é sua teoria. Pensamentos e linguagem são comportamentos no behaviorismo e em alguns teorias, como a de Maturana, p. ex, mas não em todas. Não é a toa que Maturana discute Skinner, existe uma categoria que dialoga mais facilmente, e a categoria é também um conceito, não apenas um fenômeno.

      Isso me lembra um livro bem atual, "A Arte de Reduzir as Cabeças". Nele se discute o fato de que essa tentativa de linguagem comum na atualidade, tira por menos as diferenças para manter o que é comum a todos. Vou dizer, quando começam a fazer isso, o psicanalista para de conversar e vai colher as cabeças que cairam. Psicanalista trabalha com restos, é um lixeiro.

      Hume fala de fatos, e você está tomando conceitos por fatos, e o que te permite isso, que está no centro dessa discussão é a palavra "comportamento", que, fora dos conceitos, é apenas uma visível. Por isso eu disse que acho que você sutilmente leva o conceito, que considera inclusive pensamentos e linguagem, abrange tudo, e te ajuda a acreditar que é possível dialogar com qualquer teoria. Bom, do meu ponto de vista, não é possível.

      Se eu digo "que 'comportamentos inconscientes' seriam aqueles cuja causa (ou ocorrência) é desconhecida pelo indivíduo que o apresenta" eu estou colocando "inconsciente" como adjetivação de "comportamento", estou sacrificando um conceito pelo outro.

      Vou falar do estado da arte psicanalítica em Freud, rapidamente:
      Freud escreveu textos que compõem 23 volumes. Do primeiro ao último ele trabalha o conceito de inconsciente, que tem pelo menos três significados, que se articula a três pontos de vista do funcionamento psíquico, atualizando em duas topografias do psiquismo (não do comportamento), e em duas teorias do que o sustenta, que serviu para discutir os sonhos (dois volumes para isso), os ditos espirituosos (um volume inteiro), obras de arte e de literatura, eventos contemporâneos como a guerra, pensar a técnica da psicanálise etc.

      Acha que se o inconsciente fossem comportamentos inconscientes ele conseguiria fazer algo? Não. Porque você carrega uma episteme. Veja se falo bobeira:
      No behaviorismo, organismo, pessoa, indivíduo, sujeito são termos que falam de uma mesma coisa. Há um só e apenas. Um todo. Quando ele faz um lapso, isso é apenas um erro da fala, porque ele pensava e queria dizer outra coisa, mas errou.
      Bem, na psicanálise, organismo e indivíduo são uma coisa, pessoa é outra, sujeito é outro. Se eu posso reduzir uma cabeça para ajudar, são dois sujeitos em uma pessoa, e isso faz com que digamos que há um "sujeito dividido". Quando se faz um lapso, existem dois sujeitos falando, e o que fala o erro não é nem a sombra nem o alter ego. Conversamos e intervimos nesse outro sujeito.

      Sua intervenção sobre o exemplo da estagiária, eu peço que faça o esforço de explicá-la até o máximo que puder, inclusive com suas hipóteses. Poderia retormá-la por completo, da primeira fala em diante, por favor? Isso pode ajudar a compreender o que estou falando; não estou para avaliar se é certo ou errado, mas para apontar as diferenças.

      Obrigado.

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    11. Se compreendi bem seu argumento, você supõe que o termo "comportamento" não consegue abranger/condensar tudo o que se pode estudar em psicologia, já que sacrificaria, por exemplo, a ideia dos dois sujeitos. E você questiona se poderíamos fazer certas coisas se concebêssemos tudo como fenômenos comportamentais (ou se Freud o poderia). É possível argumentar que aqueles dois sujeitos hipotéticos se comportam, interagem um com o outro, mas acho que produziremos mais a partir da seguinte questão: Você acha que podemos fazer mais -- compreender e atuar melhor -- ao supormos a existência de dois sujeitos? Por que fazer isso seria melhor do que considerar o indivíduo como um só? O que fundamenta/justifica seu posicionamento?

      (Sobre minha intervenção hipotética no caso da estagiária, eu estaria ao mesmo tempo tentando compreender sua dificuldade e a ajudando a se compreender melhor. Eu não focaria minha intervenção em seu lapso, pois creio que a maioria deles ocorre em função de inúmeras variáveis triviais.)

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    12. Eu não estou supondo que o termo "comportamento" não consegue abranger, eu estou afirmando que não consegue. Não é algo fruto apenas de teorização e criação de hipóteses, é também de práticas com psicólogos de outras abordagens em um mesmo contexto e de conversas que tenho feito há alguns anos. Não suponho porque eu vejo como esses conceitos e essas hipóteses influenciam a prática, e como uma intervenção baseada no que falo muda o rumo consideravelmente.

      Já chegou a ter uma conversa assim com um psicanalista? Tem conversado com outras abordagens ou tem mantido uma postura de tornar os conceitos compreensíveis? Eu vejo muitos guetos conversando sozinhos.

      Você pode dizer que os sujeitos hipotéticos se comportam, mas você nem me perguntou se essa noção de sujeito era a que você conhece. Se você perceber, um dos sujeitos é só um erro de linguagem, não é uma pessoa, não tem consciência, não tem nome próprio, não se defende, não se justifica. Estranho não? Pois bem, dá certo em psicanálise.

      As perguntas que você colocou fazem achar que são sobre eficácia, mas caem facilmente em valoração de certo, errado, bom, ruim. Não é a toa que a psicanálise consegue dialogar com os artistas, que Figueiredo disse que ela é uma abordagem de matriz romântica, diferente do behaviorismo, de matriz científica. Como disse um professor eclético um dia e um behaviorista conhecido noutro, "A psicanálise é tão boa que Freud ganhou somente um prêmio de literatura". Sim, o Prêmio Goethe de literatura. Maravilhoso!

      Um professor behaviorista, numa aula há uns sete anos, disse algo como: "É fácil entender a psicanálise. A consciência são comportamentos governados por regras, e o inconsciente são comportamentos modelados pelas contingências". Naquela época tomei um susto, ele havia explicado a psicanálise e a psicanálise parecia uma coisa simples à luz do behaviorismo. Bom, depois que comecei a ler psicanálise com mais afinco, fazer análise e praticar análise, vi que ele cometeu a mesma gafe da reportagem acima. Se quiser a melhor forma de entender: "inconsciente é tudo que desconcerta a pessoa, que ela toma como estranho, como não fazendo parte dela". Freud acreditou nisso.
      Quando a estagiária respondeu: "eu nunca imaginei um menina... menino nessa situação", o psicólogo psicanalista perguntou imediatamente para o erro dela: "que menina?". A estagiária ficou atônita e envergonhada. Parou, pareceu sair de um susto e disse: "eu me vi no lugar dele e pensei em como seria difícil minha mãe cuidar de mim naquela situação; ele tem a minha idade".

      Não sei se era possível saber disso de antemão. A psicanálise não é uma prática compreensiva como as demais. O psicanalista não quer entender o que está acontecendo, ele quer que o sujeito aponte em seu lapso aquilo que de fato está ali, e que ele não suporta.

      Duas suposições eu falei até agora: a primeira é a de que todos esses fenômenos que causam sideração, desconforto, estranheza são motivados, implicam um querer; a segunda é a de que todos esses fenômenos que causam isso que falei são manifestações do inconsciente. As duas suposições são apenas uma.

      Concordando contigo, operacionalizemos os conceitos. Discordo, contudo, de Hume. Pelo que você diz, ele parece achar que as coisas existem de fato. Bom, na minha perspectiva, não há coisa sem conceitos, mas os conceitos só tem valor na relação com outros conceitos, não com a coisa. A relação com a coisa é de referência, e essa referência modifica a prática consideravelmente. A prática não está em um lugar e a teoria em outro: Tire a teoria e não existe prática.

      Mas retomando o começo de tudo. O problema de dizer que a psicanálise tem princípio de causalidade interna e o behaviorismo tem princípio de causalidade externa é achar que o interno e o externo se completam. Você trabalha com o comportamento, eu trabalho com a linguagem. São crivos diferentes. Não são opostos, não são complementares, são diferentes. "Qual é o melhor?".

      Obrigado.

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    13. Flávio,

      Certamente a diferença de conceitos e princípios entre abordagens gera diferenças em suas práticas e resultados. Minha pergunta é: Que rumos são esses, e qual deles é mais promissor?

      "[...] um dos sujeitos é só um erro de linguagem, não é uma pessoa, não tem consciência, não tem nome próprio, não se defende, não se justifica. Estranho não? Pois bem, dá certo em psicanálise."

      O que você chamou aí de "sujeito" poderia ser perfeitamente substituído por "comportamento".

      "'A psicanálise é tão boa que Freud ganhou somente um prêmio de literatura'. Sim, o Prêmio Goethe de literatura. Maravilhoso!"

      Freud escrevia muito bem, e algumas de suas ideias eram intrigantes! Mas eu acredito, e você provavelmente concordará comigo, que a psicologia precisa de muito mais que romantismo.

      "[...] o psicólogo psicanalista perguntou imediatamente para o erro dela: 'que menina?'. A estagiária ficou atônita e envergonhada. Parou, pareceu sair de um susto e disse: 'eu me vi no lugar dele e pensei em como seria difícil minha mãe cuidar de mim naquela situação; ele tem a minha idade'."

      Já pensou que a garota poderia chegar a isso -- e ela aparentemente já sabia disso -- sem a pontuação do supervisor sobre seu lapso? Compreender o cliente geralmente requer que ele "aponte o que está ali", mas esse "ali" pode ser alcançado de diversas maneiras. A propósito, é possível que aquele lapso não tinha qualquer relação com a vivência da estagiária. Se ela tinha se impressionado com a ideia de estar no lugar do rapaz, muitas perguntas poderiam levar ao mesmo resultado (sua revelação). Como é que, diante disso, comprovamos que a interpretação psicanalítica estava correta?

      Infelizmente, a resposta é que não é possível comprovar isso. A psicanálise não lida com demonstrações empíricas, e isso garante que a interpretação dos psicanalistas esteja agradavelmente -- para eles -- resguardada. O mesmo acontece com os religiosos, cujas teses centrais não podem ser colocadas à prova. O que resta aos cognitivistas e behavioristas -- tal como acontece com os ateus -- é demonstrar experimentalmente que certos fenômenos podem ser explicados sem o apelo a entidades e processos hipotéticos e insondáveis.

      "Não são opostos, não são complementares, são diferentes. 'Qual é o melhor?'."

      Diferentes níveis de explicação podem se complementar -- como tentarei demonstrar num texto que devo escrever em breve --, mas um ou outro pode ser melhor ou pior a depender da pergunta que se quer responder. Como uma ilustração dessa ideia, sugiro a leitura do texto do meu colega Tiago Zortea: http://www.comportese.com/2012/10/biologia-e-analise-do-comportamento.html

      Abraço!

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    14. Rapaz, que resposta. Assumo que a recebi como uma pedrada. Fiquei algumas horas pensando nisso, não consegui dormir. Definitivamente, essa é a melhor resposta que eu poderia receber, acho que ela tocou em pontos fundamentais. Minha resposta é incompleta pelo espaço da postagem; talvez eu comente em outra circunstância.

      Vejo que você segue um axioma claro. Um axioma não pode ser refutado, ele é a base para pensar um sistema teórico, e o que não pode ser refutado é "comportamento". É um conceito utilizado como axioma, a base e o nome da teoria. Não vou questioná-lo, mas vejo que é com ele que você interpreta tudo, e pode fazer críticas precisas, mas sustentáveis apenas no contexto de sua teoria. Por mais que eu fale de psicanálise, você pega o crivo do axioma e passa pelo texto como uma tela, retirando minhas falas do contexto, escolhendo os elementos que podem ser interpretados pelo behaviorismo e, nitidamente, encontrando problemas para realizar sua crítica. Eu poderia fazer o mesmo mas não ganharia com isso.

      O termo sujeito é fundamental em psicanálise porque considera o sujeito da linguagem. Você não usa uma teoria da linguagem, mas uma teoria do comportamento verbal. Usa a verbalização, não o simbolismo. A crítica não se fundamenta. O psicanalista não está preocupado com os fenômenos objetivos, mas os subjetivos, por isso sustenta o termo "sujeito" e não "comportamento".

      Quanto à estagiária, o foco não é a descoberta de algo, você também faz isso, o foco é o posicionamento do sujeito frente ao lapso que, mesmo sendo comportamento, é também um jogo de palavras, então há um ato e um símbolo. Ao pontuar que o lapso é importante, o sujeito pode reconhecer algo seu ali imediatamente, sem ficar dando voltas de compreensão. Como você mesmo disse, ela já sabia daquilo; pois bem, a intervenção faz com que ela assuma sem encher linguiça.

      Sobre a ciência e o romance, a psicanálise tem uma proposta própria, ela não pretende o que o behaviorismo pretende, e ela sabe disso.

      Obrigado.

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    15. Acho que tenho que retomar um ponto.

      Peço desculpas pela forma dura da resposta que dei anterior a sua. Fiz algumas apelações que acredito terem influenciando provocações de caminhos que não sei se ajudariam na conversa. Tenho minha forma de entender isso, você deve ter a sua.

      Gostaria de falar da psicanálise e do inconsciente, caso se interesse, como era a questão da postagem.

      A psicanálise tem um propósito, e é fazer uma análise do psiquismo, por isso o seu nome. Não se propõe a curar um problema, a resolver uma dificuldade, a dizer com sair, a sugerir algo, nada, apenas analisar o psiquismo.

      Acho que não é um termo que você compartilhe, mas é o que propomos. Entendo que há críticas ao termo.

      O mais simples da psicanálise é o fato de que alguém possa cometer um erro e sentir-se envergonhada(o) pelo que cometeu, incomodado, tirando-se de cena. O fato de existir um erro e um sentimento relacionado chamou a atenção, e passou-se a tentar descobrir o que era.

      Um dia uma paciente propos a Freud que ele ficasse em silêncio quando ela falava, e que ela falasse as coisas estranhas que ela tinha na cabeça. Ele aceitou e tornou isso a regra fundamental da psicanálise, a chamada "associação livre", que não tem nada livre, já que se considera que um pensamento leva a outro, e que há pensamentos que temos sem pararmos pra nos darmos conta de que estamos pensando. "Olha, me veio na cabeça...".

      Então, o trabalho do psicanalista é analisar o que passa na cabeça, independente de cunho, de sentido, de frase arrumada.

      Por estranho que pareça, quando alguém começa a falar essas coisas, elas passam a trazer elementos antes desconhecidos, e a produzir outros fenômenos, como o que Freud chamou de transferência.

      A ideia de Freud era inicialmente reconstruir a memória das pessoas e fazer com que cada um reconheça seu desejo naquilo que faz, fala, pensa, mesmo sendo estranho a ela.

      Ser eficaz, ser promissora, ser científica, isso depende do que se pensa por cada um desses termos. Depende muito do crivo que se coloca. Não dá pra criar critérios comuns se até a proposta de "cura" é diferente.

      É isso.

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    16. Flávio,

      Eu não estava com pedras nas mãos quando escrevi minha última resposta; acho que eu estava apenas um pouco impaciente, e então quis ser mais objetivo com nossa boa discussão.

      Sobre meu uso do termo "comportamento", isto é o que tenho para tentar compreender o que você diz. Comportamento é qualquer relação do indivíduo com o mundo e consigo mesmo; abarca a relação de sua conduta com suas respectivas consequências; e ambientes ou contextos com suas emoções, pensamentos (raciocínio, análise, planejamento, "decisão") e respostas fisiológicas (arrepio, taquicardia, sudorese); e do pensamento, emoções e respostas fisiológicas com eles mesmos. Por isso, qualquer outro evento que ocorra nos limites do corpo (e da "mente") encaixa-se perfeitamente numa contingência comportamental. A partir desse referencial (que enlaça também os eventos subjetivos), procuro tentar compreender os fenômenos a que você faz referência.

      Sobre o tipo de intervenção no caso da estagiária, minha crítica parte da hipótese de que a maioria dos lapsos é trivial: são erros ou variações de resposta cometidos em função de variáveis sem maior importância clínica. IMPLICAR o indivíduo em análise é de fato imprescindível, mas isso é bem diferente de o analista implicar com seus lapsos ocasionais. A implicação do indivíduo diz respeito ao conhecimento de e responsabilização por seus comportamentos diários, mesmo que estes ocorram -- e realmente ocorrem -- durante as sessões (atitudes, ideias, sentimentos). Mas eu vejo a intervenção focada nos lapsos como um apontamento do professor de balé sobre o movimento da bailarina ou do professor de português sobre a grafia do estudante. Deslizes nesses desempenhos podem até ser explicados por variáveis paralelas (distração, indisposição, cansaço), mas eu não vejo razão para crer que elas irrompem de um lado oculto da mente. Acho improvável haver um "querer" nos lapsos, mas eu só poderia demonstrar isso indiretamente, ou seja, à medida que lhe mostro evidências de que isso pode ser perfeitamente explicado de outras maneiras.

      "Ser eficaz, ser promissora, ser científica, isso depende do que se pensa por cada um desses termos. Depende muito do crivo que se coloca. Não dá pra criar critérios comuns se até a proposta de "cura" é diferente."

      Concordo plenamente, Flávio! Minha vontade é de que a psicoterapia esteja amparada em certas diretrizes comuns, algumas das quais compartilhadas por outras especialidades clínicas. Se cada abordagem tem seu próprio objetivo, não faz muito sentido dizer de "psicoterapia", não acha? Analisar o psiquismo ou o comportamento é um ponto fundamental, mas acho que não pode ser um fim em si mesmo. As pessoas geralmente não procuram um psicólogo apenas para se conhecer melhor... elas querem ter mais qualidade de vida, ser mais autônomas, rever seus projetos, vencer suas dificuldades... Eu não sei em que pé poderíamos começar, mas creio veementemente que adotar o método científico é um passo decisivo para melhorar nossas práticas e valorizar nossa categoria.

      Abraço!

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    17. Cada um toma uma leitura a partir de seu ponto de vista o que do supõe; bom, eu, quando escrevia uma resposta anterior, já escrevia supondo uma crise...

      Há dois homens de culturas diferentes. Eles tentam conversar. Cada um fala em sua língua, cada um interpreta a partir de sua língua, o diálogo não segue adiante. Se um deles abdica de sua língua para entender o outro a partir da língua do outro, ele deixa de entender a partir de sua língua, obviamente.

      Não sei como funciona a abordagem comportamental, mas quando li a parte da bailarina e do estudante, me pareceu a ideia de alguém que está ali para corrigir e tornar certo. A psicanálise não aponta o lapso para corrigir, aponta o lapso para pluralizar o sentido que a consciência deu e ficou presa. Cada um tem um conjunto de símbolos aos quais está preso.

      Você sabe bem, já deve ter vivido isso, o quanto em alguns momentos vamos falar algo e falamos outra coisa que causa risada em todos, sem uma compreensão imediata da situação. Palavra que sai pela boca e, por mais que não aceitemos, serve perfeitamente ao rumo da conversa, e aponta exatamente o que não queria ser dito, sem que tivéssemos nos atentado a pensar a respeito. Você tem sua compreensão disso, a psicanálise também tem.

      Uma psicanálise não é proposta para dar mais qualidade de vida, dar autonomia, rever projetos, vencer dificuldades, ela é proposta para analisar fenômenos particulares que causam estranheza à pessoa (sonhos, lapsos, risadas sem sentido, repetições na vida etc) a partir de noções como inconsciente, desejo etc. A pessoa chega dizendo que tem problemas no trabalho e não dá certo; pede-se que se fala a respeito; ela fala, pensa isso, aquilo, muda de assunto, fala de outra coisa, a princípio fora de mão; então, de repente, uma palavra que ela usa para falar de um contexto ela usa para falar de outro. Pronto, pode-se começar uma psicanálise.

      Ela pode recusar o atendimento e ir embora. Ela pode ficar e continuar. Respeitamos isso. A pessoa que busca o psicanalista é chamada inicialmente de "paciente", e com o tempo de "analisando". Ela não é vista como um "cliente", que busca um serviço para resolver seu problema. Ela pode até achar que é isso, a psicanálise não.

      Você tem experiência como comportamental; eu posso te dizer que a experiência como psicanalista é bem diferente, à revelia daqueles que podem vir a achar que tratam-se dos mesmos problemas. Já participei de situações que ao contrário do que se poderia imaginar, o paciente assumiu uma posição completamente diferente daquilo que todos achávamos que era "o certo, o eficaz, o correto", e isso foi maravilhoso, porque sabíamos que havia a sustentação de um desejo, inclusive, a partir da implicação com esses lapsos supostamente triviais.

      Trabalhamos com as mesmas pessoas, não com os mesmos conceitos. Fora isso, achei muito legal você situar a que se refere conceito de "comportamento". Ficou mais clara a existência do conceito e dos fenômenos aos quais ele se presta a dar voz. A impaciência dizia respeito a que?

      Obrigado.

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    18. Flávio,

      Acho que minha analogia da bailarina e do estudante não ficou bem construída. O que eu quis dizer é que o lapso está para o indivíduo que o emite assim como erros de movimento e de grafia ocasionais estão para a bailaria e para o estudante. Em vez de o psicanalista ver o lapso dessa forma -- em geral, como algo clinicamente irrelevante --, ele o coloca no centro de sua análise. Eu entendo que ele não quer corrigi-lo; minha hipótese é de que ele parte de uma suposição incorreta (a de um "querer", de algo oculto que deu as caras e que é clinicamente relevante etc.).

      "Uma psicanálise não é proposta para dar mais qualidade de vida, dar autonomia, rever projetos, vencer dificuldades, ela é proposta para analisar fenômenos particulares que causam estranheza à pessoa (sonhos, lapsos, risadas sem sentido, repetições na vida etc) a partir de noções como inconsciente, desejo etc."

      Entre outras coisas, é por isso que ela não é considerada uma abordagem da psicologia? Eu de fato não sei exatamente por quê.

      Minha impaciência talvez dissesse respeito a estarmos dando voltas e a não estarmos nos entendendo bem -- quase que cada um falando sozinho. Mas a conversa voltou a ficar mais agradável depois de tentarmos mostrar um ao outro o que queremos dizer com nossos conceitos. Seria como um grego e um japonês começarem a se entender depois de passarem a falar em inglês.

      Abraço!

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    19. É engraçado como duas línguas tão complexas e cheias de meandros possam ser deixadas de lado para se conversar em uma tão pragmática como o inglês. "Foi apenas um exemplo, poderiam ser outras línguas", você dirá, e eu direi, "não é qualquer palavra que escolhemos para exemplificar o que pensamos". Well, then...

      A psicanálise não se considera sequer uma psicoterapia. Mesmo Freud utilizando o termo, ele batia na tecla dizendo que a cura é efeito. Além disso, a psicologia também não é a única que faz psicoterapia; fiquei sabendo esses dias que existem outros profissionais que se chamam psicoterapeutas (justificadamente, pelo visto).

      Farei um percurso...

      Quando Descartes diz "penso, logo existo", ele cinde a relação corpo e mente. A mente ganha status de importância, e o pensar, supostamente, ganha status de psiquismo. Bom, pensar é a conclusão de Descartes, mas seu método, na verdade, foi duvidar. "Dúvido, então penso, logo existo". Não havendo dúvida, não há pensar; vive-se tranquilamente sem precisar pensar. A dúvida é aquilo que, num "ser ou não ser" faz com que a pessoa não se reconheça em suas ações (o que é um tanto estranho). Essa cisão epistemológica cinde também a percepção de mundo: aquilo que a consciência não reconhece como seu não faz parte do psiquismo, é um erro trivial.

      Lévi-Strauss tem dois textos que gosto, "A eficácia simbólica" e "O feiticeiro e sua magia". Ele fala de efeitos de sugestão, do simbolismo na vivência humana, da relação entre o homem e seus atos etc. Também faz a comparação do psicanalista com um xamã. Enquanto o xamã interpreta a vida da pessoa a partir de seu conhecimento, dando a essa vida um sentido, o psicanalista interpreta a vida da pessoa a partir das associações da própria pessoa.

      Mesmo o behaviorismo, acho, supondo a existência de um organismo que se comporta, não parece considerar relevante todo comportamento; alguns perdem sua relevância clínica. Um tanto cartesiano. Seu exemplo, acho que é infeliz, serve mais para falar do texto da reportagem, que toma inconsciente por repetição de comportamento, quase um aprendizado. No dia-a-dia trocamos palavras, trocamos as pernas, trocamos os dedos, etc.

      A troca de uma palavra por outra é começo de uma psicanálise, isso é importante; estou falando apenas do começo. Há fenômenos mais complexos, chamados transferenciais. A lógica cartesiana é a de tomar o que se atenta como consciente; e o que não se atenta? Onde está? Poderia uma ideia não presente na consciência continuar ativa no pensamento?

      A troca de uma palavra por outra aponta para isso. A fono escuta a fala, e em seguida faz um lapso em sua apresentação. De alguma maneira, aquela ideia passou por seu pensamento, e o fato dela ter um desconcerto em seguida denuncia isso, ela reconhece que alguma coisa aconteceu ali, mas se justifica bonitinho e todos aceitam.

      Você troca uma palavra por outra e ri, se envergonha, não se atenta mas alguém escuta e ri, faz duplo sentido, aponta para outra cena etc. A psicanálise tenta retomar a relação do ser humano com seus atos e palavras; possibilitar com que a pessoa se reconheça naquilo que ela não tomava como seu. Há um conceito de energia psíquica que permite re-relacionar corpo e mente e ainda falar de sentimento e desejo.

      A fala da suposição errada me estranha. Pensei imediatamente na tentativa de uma correspondência exata entre conceito e fenômeno, que é uma falácia. Cada vez que um conceito se aproxima para corresponder a um fenômeno ele deixa de ser conceito e passa a ser fenômeno (analítico>descritivo). Daí talvez acreditar que "comportamento", p. ex., é igual a tudo aquilo que você falou, quando, na verdade, é uma referência teórica. Entendo que pensar, falar, sentir é se comportar, mas daí a atribuir as leis comportamentais (leis teóricas) a todos esses fenômenos... Outra coisa, não acho que a psicanálise se coloca uma suposição errada, há indícios clínicos que mostram o contrário, mas acredito que também force; toda teoria faz isso.

      Obrigado.

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    20. Flávio,

      "'Foi apenas um exemplo, poderiam ser outras línguas', você dirá, e eu direi, 'não é qualquer palavra que escolhemos para exemplificar o que pensamos'. Well, then..."

      Eu não duvido disso. Mas, como no caso dos lapsos, eu não vejo nada de mais nesse apontamento. Eu não creio que haja algo especialmente revelado -- ou a se revelar -- em eu ter utilizado os termos "grego", "japonês" e "inglês" em minha analogia. Podemos encontrar várias coisas ao investigar o que está por trás de ou relacionado a qualquer comportamento, mas eu não creio que "escavar" a partir de fenômenos como os lapsos seja o melhor caminho.

      Como você falou de pragmatismo e ceticismo, veja algumas questões que eu acho relevantes: O que é encontrado a partir da investigação pelos lapsos pode ser encontrado pela investigação de outros/as comportamentos/expressões/verbalizações? Se sim, qual dessas investigações é melhor (tempo de investigação, nível de aversão para o cliente etc.)? Com que frequência se encontra algo pelos lapsos, e qual o tipo de relação -- íntima, marginal ou insignificante -- da descoberta com o lapso? Respostas a essas perguntas poderiam justificar ou não uma intervenção focada nos lapsos.

      O ponto, Flávio, é que eu preciso de mais que "indícios clínicos" para crer e efetivamente nortear minhas práticas com base em uma hipótese (não é por acaso que eu venho me interessando pelo movimento das práticas psicológicas baseadas em evidências). Como eu lhe contei, eu até tenho indícios de que os lapsos sejam clinicamente irrelevantes. Apesar disso, as observações que fiz -- e que outros podem observar ao fazer a brincadeira do "branco" e da "uva", por exemplo -- estão muito longe de comprovar minha hipótese. Mas eu não ligo muito, já que o ônus da prova é de quem faz a alegação positiva (ou de quem afirma a existência de algo). Será que a hipótese psicanalítica resistirá como acontece com a crença nos santos?

      Abraço!

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    21. Indícios são legais, principalmente hoje em dia, em que se encontra para afirmar uma tese, uma antítese, uma síntese e seu contrário simultaneamente. Coisa da ciência... coisa do ser humano.

      Achei esse um dos melhores comentários, não apenas pela postura mais respeitosa que a discussão vai tomando, mas pelo aparecimento mais claro, pelo menos pra mim, de uma certa situação. Explico. Li o comentário e pensei se eu estava tentando te provar que a psicanálise vale a pena como opção de escolha, justificar suas qualidades para você. Rapidamente vi que, desde o primeiro momento, venho tentando sustentar uma posição de apontar as diferenças, sem avaliação de eficácia, apesar de que eventualmente isso pode acabar acontecendo. No entanto, essa ideia aparece em sua fala, e eu fiquei realmente curioso a esse respeito.

      Minha escolha pela psicanálise está tomada, não digo que tenha sido ou que seja fácil, que não tenho dúvidas ou dificuldades, mas parece aparecer em sua fala quase que um pedido de saber se eu consigo apontar indícios claros e evidentes, comprovações precisas e exatas, contundentes ao seu ver, de que ela vale a pena, talvez, não sei, para você repensar as suas escolhas. Não sei como está isso pra você...
      de qualquer modo, não é problema meu, desculpe-me se sou invasivo ao apontar.

      Sonhei com essa situação nessa noite...
      digo isso sem que as imagens do sonho tenham feito uma referência sequer a respeito... rsrs.
      Lembro que os lapsos são um dos fenômenos; os sonhos, as metonímias, as metáforas, as homofonias, as alusões, os esquecimentos e vários outros fenômenos de linguagem são trabalhados em uma psicanálise. Isto é o que ela se propõe. Aí está a tradição na qual ela se constitui e se sustenta. Já me disseram que o behaviorismo transforma tudo em comportamento e que a psicanálise transforma tudo em linguagem. Sendo ou não, o comportamento tem suas leis observadas e experimentadas, a linguagem tem suas leis escutadas e colhidas de surpresa. Fato é que a noção de símbolo, o sentido propriamente dito, isso não sei como aparece no behaviorismo, mas é parte da práxis da psicanálise.

      Eventualmente algumas das coisas encontradas com a análise desses fenômenos tocam no que outras abordagens encontram; na maioria das vezes, não. (Tenho visto isso diariamente; os indícios... diferentes nos dois campos). Lembro-me de uma paciente que dizia ter "muita fé em Deus" falando de uma situação e ter "affair com muitos homens", e isso bastava para uma psicanálise iniciar, mesmo que as relações entre os contextos não fossem identificados tão rapidamente (a homofonia bastava). Você sabe que uma psicanálise demora, que a proposta behaviorista é outra, que a noção de "aversão" não é psicanalítica, que a sua é a melhor porque é sua, e que a minha é melhor porque é minha.


      Freud instaurou uma nova discursividade. Depois da psicanálise, vários campos iniciaram. A psicanálise é algo que se ama ou se odeia, e segue outra lógica, que não é a da ciência, nem a médica, nem a psicológica (ambas buscam equivalência). O behaviorismo, falando um pré-conceito, segue a tradição da ciência, da medicina, da psicologia. Acho isso até bom ultimamente, quando a cognitiva e a comportamental tem se aproximado do discurso médico, apresentando-se como as abordagens da vez. A psicanálise livrou-se disso e pode fazer seu percurso, constituir seu campo, sustentar seu discurso, que é diferente na forma de trabalho e sim, tem êxito para aquilo que se propõe.

      Acho que se antes a psicanálise era tomada como resposta aos problemas do mundo, agora, que há outras que dão as respostas e ficam nesse lugar (tentando responder ao que é pedido), ela pode sustentar o que é próprio de sua práxis: ser uma pergunta, uma questão, um X. (No final do sonho eu me dizia "X, HOLD X!", rsrs.)

      Se a psicanálise é melhor ou pior, retirando minha posição e a sua, aí já são outros quinhentos... mas não dá pra tirar minha posição e a sua, dá?

      Obrigado.

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    22. Flávio,

      Embora eu tenha decidido estudar e seguir o behaviorismo, eu não o defendo com unhas e dentes. Como as demais abordagens, o behaviorismo tem suas limitações. Gosto de sua economia conceitual, de seus modelos explicativos, de seu pragmatismo e de seu compromisso com a ciência... mas há coisas que lhe faltam. Com um conjunto de aspectos interessantes em mãos e um grande campo a ser desenvolvido pela frente, senti-me motivado a conhecer melhor o velho Skinner.

      Uma abordagem (conceitos, valores, princípios etc.) pode ser vista, entre outras coisas, como uma ferramenta que nos auxilia na conquista de certos objetivos, e aparentemente você e eu temos objetivos distintos. Desejo muito compreender o comportamento humano, ajudar meus clientes da melhor maneira, fazer pesquisas, teorizar, contribuir para a formação de bons psicólogos e para que a psicologia seja mais reconhecida e valorizada. Acredito que o método científico seja um meio excepcional para compreendermos o comportamento (e a "mente" pode entrar no balaio), para arquitetarmos boas teorias e práticas e para fortalecermos a psicologia. A propósito, eu torço mais por uma psicologia baseada em evidências do que para o behaviorismo.

      Mas eu não odeio ou sou contra a psicanálise. Reconheço que Freud fez e escreveu coisas relevantes para a psicologia. Minha implicância diz respeito a quão válidas e precisas foram essas afirmações, e isso implica automaticamente em questionar as práticas baseadas nessas afirmações. Se algum dia forem comprovadas certas teses de Freud, eu não verei problema em agregá-las aos meus repertórios teórico e prático. O problema, como venho apontando, é a aparente impossibilidade de colocá-las à prova.

      Abraço!

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    23. Acho que chegamos, então, ao início dessa conversa e, provavelmente, ao seu final: a questão da comprovação das teses psicanalíticas.

      De fato, se se utiliza os moldes e as prerrogativas que a ciência se imputa, não sei se se chegará a alguma comprovação. Popper faz uma crítica severa a esse tipo de situação, por não poder entrar em seu princípio de falseabilidade. Mas Popper tem uma proposta para as ciências exatas (lógicas dedutivas ou hipotético-dedutivas).

      Em partes, Freud, segue dedutivamente, mas ele muda sua lógica. Isso pôde ser discutido pela matemática com a lógica paraconsistente. Mas isso é outra história.

      Freud fez algo que acho impressionante. A pessoa falava algo, seguia um raciocínio, parava deixando uma palavra pela metade e ele pedia que ela retomasse daquela palavra, interessado em saber o que havia sido deixado de lado. A pessoa de repente lembrava-se de um sonho, ele pedia que ela lhe contasse. Seu foco não era mais entender o acontecido, era o de escutar as palavras faladas e encontrar o sentido que a pessoa dava ao que vivia. Recusava-se a aceitar o sentido comum. Pedia que a pessoa falasse seus pensamentos sem se preocupar se eram bobeira, aquilo lhe passava na cabeça sem se preocupar em corrigir, sem censurar.

      Daí ele cunhou seus conceitos. Consciente, pré-consciente, inconsciente. Isso, eu, supereu; esses últimos mal traduzidos por id, ego e superego, dando uma vertente filosófica, quando ele dava uma filológica. O "eu" em Freud é a primeira pessoa singular da língua alemã (das ich), o "supereu" é o extremo do eu (uber-ich) e o "isso" é a terceira pessoa singular (das es), que na verdade não é pessoa, mas o objeto da frase, aquilo sobre o qual se fala, a coisa. Ele acreditava que, apesar da língua comum, cada um constrói sua própria língua, que ele denominou "inconsciente". Daí se entende a frase paradigmática de Lacan "o inconsciente está estruturado como uma linguagem".

      Um psicanalista respeita isso a todo custo. Ele escuta palavra por palavra, as relações, os jogos, lapsos, a posição do sujeito etc.

      É difícil comprovar algo que é tão singular. Se cada um tem sua língua, como criar um experimento, se isso já implica mais de um? Se cada língua é diferente, utilizar dois pra comprovar um dá problemas, prostitui o objetivo. Bancamos esse fardo.

      Vi algumas análises e discussões em seu blog e no Comporte-se. As frases de uma música analisadas com a ideia de comportamento verbal focam nas coisas, não sendo uma análise das palavras, mas das coisas a que elas se referem. A psicanálise parte do princípio de que as coisas, no campo humano, estão perdidas, restando apenas palavras.

      Vocês sabem de tudo isso...
      ------ Sobre o objetivo:
      “O objetivo último é a previsão e o controle do comportamento verbal” (Skinner, 1957, p. 13)
      ------ Sobre as categorias comportamento e comportamento verbal:
      “A categoria ‘comportamento verbal’ sublinha a similaridade entre comportamento verbal e outros comportamentos operantes. o conceito de comportamento verbal inclui muito do que fazemos” (Baum, 2006, p. 141).
      ------ Sobre a categoria linguagem:
      “A linguagem tem um caráter de coisa, algo que a pessoa adquire e possui. Uma concepção muito mais produtiva é a de que o comportamento verbal é comportamento” (Skinner, 1974, p. 79).
      http://www.comportese.com/2012/10/afinal-o-que-e-esse-tal-comportamento.html

      Há escolhas, que apontam para lugares diferentes, como você disse. Psicanálise e behaviorismo não são nem antagônicas. Elas simplesmente não são relacionáveis. Mas esse é meu ponto de vista.

      Passei os últimos dias e noites pensando nessa conversa. Tive alguns sonhos bastante significativos. Tive um bom rival para debater conceitos e práticas.

      Acho que você segue um caminho maneiro, de propor uma psicologia baseada em evidências. Eu não compartilho dessa ideia, você bem sabe, mas se é o que te interessa, acho que tem que correr atrás mesmo e bancar. Depois se colhe os efeitos.

      Por fim, Daniel, meu muito obrigado pelo espaço e pelo debate.
      Forte abraço.
      Tchau.

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    24. Flávio,

      "É difícil comprovar algo que é tão singular. Se cada um tem sua língua, como criar um experimento, se isso já implica mais de um? Se cada língua é diferente, utilizar dois pra comprovar um dá problemas, prostitui o objetivo. Bancamos esse fardo."

      A análise do comportamento lança mão do delineamento de sujeito único, pelo qual o indivíduo é comparado com ele mesmo em diferentes momentos. Apesar disso, as leis do comportamento são as mesmas para qualquer indivíduo, talvez similarmente à ideia de que o aparelho psíquico funciona mais ou menos da mesma forma em qualquer pessoa.

      Obrigado por participar! Gostei muito do debate! Volte sempre...

      Um abraço!

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  7. Muito bom texto, Daniel!

    E eu também gradei da sugestão da Thais! Ainda fico perdido e confuso quanto às incompatibilidades filosóficas entre o cognitivismo e o behaviorismo radical. Abrá!

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    1. Grande Jessé! Leia o comentário (o maior) que deixei para o Flávio; acho que essas diferenças ficarão mais claras para você. Qualquer coisa, vamos conversando...

      Abraço!

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    2. Fala, Daniel! Seu post está dando no que falar hein! hehe

      Muito bom seu texto, de muito fácil compreensão mas sem perder a profundidade.

      Engraçado que essa visão deturpada dos inconscientes aparece também em livros, como pude perceber pelo capítulo que um doutorando da disciplina de fisiologia que faço, indicou. Eram dois capítulos, um sobre uma pesquisadora que desbravou o campo das "falsas memórias" e um sobre o Kandel. No primeiro, o capítulo questionava a idéia psicanalítica de rememoraão fiel do trauma na infância bem como a possibilidade de esquecimento total, já que traumas costuma, ao contrário, ficarem "martelando na nossa cabeça por um bom tempo, senão pra sempre. No segundo, o autor do livro dizia que a pesquisa do neurocientista tinha confirmado os pressupostos da psicanálise sobre o inconsciente. Só que as pesquisas do Kandel falam de um inconsciente cognitivo, não de um inconsciente como um "outro eu", como diz a teoria freudiana.

      Enfim...esses equívocos são mais comuns do que pensamos.

      Grande abraço!

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    3. Obrigado, Felipe!

      Pois é, eu também acho estranha a ideia de que "recalcamos" eventos significativos para dificilmente lembrarmos deles depois, como ocorreria com os traumas. Tê-los "martelando em nossa cabeça" sempre me pareceu o cenário mais provável. E, de fato, conceituar cuidadosamente nosso objeto de estudo é importante para evitar conclusões indevidas, como parecem ter sido essas sobre a confirmação das teses de Freud.

      Abração!

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  8. Olá Daniel, parabéns pela matéria.

    Como tudo que leio venho pesquisar na internet, daí achei seu texto contra-argumentando para mim pode fazer minha análise. No caso, eu comprei a revista mais pelo fato de ser um grande fã de Freud. Mas a revista foi puro marketing, a capa deveria ser outras matérias (tinha outras muito boas dentro da revista, não sei se pode observar). Na minha opinião, foi um pesquisa bem xoxa e pouco acrescentativa.
    No caso, toda a revista Superinteressante é bastante exagerada. Isto porque o publico alvo são os jovens que gostam de mudanças e ouvir coisas novas. Portanto, quando mais palavras "novo(a)" eles colocam na revista, mais eles vendem por assim dizer. Apesar de eu admitir que há grandes e boas matérias na revista, eles apresentam várias matérias de forma tendenciosa, daí eu já sabendo disso absorvo somente a informação. Um ex está na página 18 onde afirma que o livro impressso será para o digital como os pergaminhos manuscritos foram para o papel. QUE ABSURDO! A meu ver, a evolução rádio-tv foi muito mais drástica que livro-ebook e mesmo assim rádio não é objeto de museu.
    Quanto a sua matéria concordo contudo, mas discordo do caso da nutricionista. Acredito que ela estava distraida e por aquela informação estar no seu subconciente (ultimas palavras ouvidas foram nutricionistas e apresentação) ela falou "nutricionista". Não acredito que se relaciona com desejo oculto.

    Abraços

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    1. Por mim, prosseguirei aumentando minha pequena biblioteca até o fim dos tempos!

      Obrigado pela participação!

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  9. Daniel, pelo término de sua análise, pude perceber uma certa repulsa pela ideia do "inconsciente". Entretanto, considerando a evolução como um fato, como você encara a idéia de que seres menos complexos, sem o lado "consciente" desenvolvido e vivendo afunilados pelo instinto, se relacionem conosco ? Em termos de parentesco, já que temos base evolutiva em comum, não teriamos toda essa "carga mental" provinda deles ?

    Quer dizer, mesmo não possuindo o teor empirico, podemos usar da observação, pura e simplesmente, para verificar tais ações(não que isso prove algo por definitivo, nem que explique claramente o que é, de fato, o inconsciente).

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    1. Anônimo,

      Basicamente, sou cético em relação à noção do inconsciente enquanto uma entidade no qual jazem traumas infantis reprimidos e questiono sua utilidade enquanto variável explicativa do comportamento. Mas eu não vejo problema na ideia de que, como os demais animais, frequentemente fazemos coisas sem perceber e sem saber por que -- uma noção mais genérica de inconsciência.

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  10. Qual a diferença do "inconsciente" pra psicanálise do "inconsciente" pra psicologia ?

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    1. O que eu entendo do inconsciente psicanalítico é o que venho retratando até o momento -- uma entidade oculta dotada de forças e mecanismos e na qual jazem traumas infantis --, mas é possível que minha noção esteja um pouco equivocada ou bastante incompleta. Sobre a psicologia em geral, o que eu percebo é que a ideia de que agimos frequentemente sem perceber e sem entender por que é aceita por boa parte dos psicólogos.

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  11. Olá Daniel
    Parabéns pela análise crítica da matéria da Super. Como sempre, a mídia faz péssimas deturpações das descobertas científicas para poder montar matérias que sejam facilmente vendáveis. Também acompanhei parte de suas discussão com o Flávio e gostaria apenas de fazer uma ressalva em um dos seus primeiros comentários: há um tremendo erro conceitual de alguns autores que dizem que o cognitivismo moderno atribui a causa de eventos externos a fenômenos internos (raciocínio, inteligência, motivação etc), como se estes últimos fossem entes concretos e monolíticos. Infelizmente, esta é uma crítica completamente equivocada, uma vez que se baseia em pressupostos "mentalistas" (falo aqui de uma visão filosófica muito anterior ao surgimento da própria Psicologia Científica), mas não necessariamente cognitivista. Conforme o Flávio sinaliza em um de seus comentários, acredito que esta crítica é resultado de uma ignorância (dita aqui como falta de conhecimento mesmo) profundo sobre uma abordagem teórica-epistemológica, o que leva este autor a tomar apenas sua própria perspectiva para construção do seu argumento. Costumo usar como exemplo "inverso" o caso de algumas críticas sobre a a Análise Experimental do Comportamento que diz que a teoria é "muito fraca" ou "reducionista", pois se baseia em um modelo baseado no estímulo-resposta. Ou seja, estas pessoas desconhecem completamente o modelo Skineriano de comportamento operante e reduzem toda uma abordagem à perspectiva respondente de Watson. Para resumir e para dar uma sugestão de atualização: o cognitivismo moderno se baseia em uma visão funcionalista da mente (algo completamente alinhado com o início de sua análise quando fala sobre o que nós chamamos de inconsciente cognitivo), muito mais do que na visão monista-localizacionista que você critica. Abraços

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  12. Leonardo,

    Primeiramente, obrigado pelo comentário. Sobre sua ressalva, uma de minhas críticas ao cognitivismo de fato diz respeito à sua aparente perspectiva de explicação internalista. Minha crítica fundamenta-se na leitura que fiz de alguns livros do Pinker, na supervisão de estágio clínico que tive na graduação (com um professor cognitivista) e em leituras esporádicas que fiz de textos de pessoas da área. A ideia que formei é de que o cognitivista explica o comportamento através de construtos como crenças, desejos, habilidades e mecanismos -- um conjunto de variáveis "internas" acopladas à mente ou ao cérebro. Se minha impressão está equivocada, gostaria que você apontasse meus erros e me explicasse como as coisas de fato são. Se puder me sugerir alguma leitura básica, ficarei grato.

    Um Abraço!

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  13. Flavio
    Ate entendo que a tua leitura do Como a Mente Funciona possa ter te levado a construir essa ideia equivocada do que seja o Cognitivismo moderno, pois apesar de eu gostar do livro, tenho que admitir que o Pinker escreveu o livro muito mais com o interesse de produzir algo palatavel (tipo best seller) para o grande publico leigo do que para compilar descobertas cientificas de uma determinada area. Ah, e diga-se de passagem: o Pinker se autodenomina (e eu concordo com ele) psicologo evolucionista, muito mais que cognitivista. Mas ja que, a partir dos exemplos de contato que voce disse ter tido com o cognitivismo, acabei reforcando a impressao que tive ao ler sua critica, antes de lhe indicar alguma "leitura basica" da area, por favor, responda a essas duas perguntas basicas: 1. Pra voce, ha diferencas entre mentalismo e cognitivismo? Se sim, quais? 2. Alguns exemplos de autores que para voce sao cognitivistas?

    A depender de como voce responder estas duas perguntas, poderei saber se poderemos prolongar esta conversa para eu te mostrar que, talvez, o que chamas de cognitivismo esteja um pouquinho equivocado...
    Abracos

    ps: nao resisti a mais uma pergunta: se eu fosse um jovem estudante interessado em conhecer mais sobre os pressupostos epistemologicos e teoricos da AC, voce acha que seria uma boa opcao comecar e terminar meus estudos por Walden II? Sera que essa leitura seria suficiente para eu construir uma base critica solida a respeito da AC?

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    1. Leonardo,

      1. Sim. Pelo que entendo, há o mentalismo dualista e o mentalismo monista. Como os cognitivistas afirmam que a mente é de natureza física, eles são monistas. Há quem diga que a mente É a atividade do cérebro, e há quem sustente que ela é a PERSPECTIVA SUBJETIVA do funcionamento desse órgão. É possível também concebê-la como um conjunto de ferramentas ou mecanismos, e acho que isso se aproxima também da noção evolucionista de mente. Em suma, imagino que o cognitivismo trabalhe com uma versão própria do conceito de mente (como um leque de módulos que manipulam representações, por exemplo), e isso faz dele uma abordagem mentalista.

      2. Meu contato com autores cognitivistas se deu principalmente pela minha relação com a neurociência. Eu poderia citar Michael Gazzaniga e António Damásio, por exemplo. Afora esse ramo, tive um contato razoável com Steven Pinker (que se intitula também como cientista cognitivo) e um contato mais breve com Aaron Beck.

      Sobre o Walder II, você já sabia qual seria minha resposta (e por isso vou poupar alguns caracteres). Por isso, continuo aguardando boas leituras da área cognitivista.

      Não sei se você ainda está acompanhando minha discussão com o Flávio, mas vi que você confundiu nossos nomes. Como estamos discutindo sobre esses lapsos, gostaria que você nos contasse um pouco sobre como o cognitivista pode explicá-los.

      Obrigado. Um abraço!

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  14. Daniel
    Vou tentar responder teus comentários ponto a ponto para facilitar o debate:
    1. Estais correto quando fala das perspectivas monista e dualista e também que estas acepções, então, poderiam ser classificadas como "mentalistas" (mais amplo do que o cognitivismo). Por outro lado, te esqueces de mencionar que existe uma terceira perspectiva que defende uma perspectiva funcionalista da mente, a qual rebate completamente essa possível noção da mente como algo físico/ concreto. Se bem que não estou tão certo assim que mesmo um monista defenderia a mente como algum tipo de estrutura física localizada dentro do cérebro ou em qualquer outra parte do corpo. Ou seja, a variação de perspectivas dentro de uma mesma escola de pensamento (a que você chama de cognitivismo e equivale a mentalismo) torna tua crítica inadequada porque parece que estais jogando todo mundo no "mesmo saco" (veja o exemplo de tua própria fala: "Como os cognitivistas afirmam que a mente é de natureza física, eles são monistas"; na verdade a lógica mais correta seria a inversa: alguns cognitivista são monistas, mas há monistas que não são necessariamente cognitivistas).
    2. Vou pincelar parte da tua fala aqui para fazer mais uma ressalva: quando alguém se intitula cientista cognitivista não quer dizer necessariamente que ele seja um psicólogo cognitivista. Como bens deve saber, há uma área mais ampla do que a própria Psicologia que é chamada de "Ciências Cognitivas", a qual adotou alguns dos princípios da Psicologia Cognitiva, mas que engloba Linguistas, Neurologistas (Damásio, por exemplo), Cientistas da Área de Informática etc... muitos dos quais não estão nem um pouco interessados em discutir um conceito de "mente", mas apenas usar os conhecimentos produzidos nos estudos empíricos da área para desenvolver pesquisas em suas respectivas expertise (exemplo interessante seria ver os trabalhos da galera que trabalha com simulações de redes neurais, para criar sistemas "inteligentes" de reconhecimento).
    3. Com relação às leituras, poderia dizer que talvez fosse interessante você dar uma olhada nos experimentos clássicos de S. Miller, Sheppard, Marcel (esse vale a pena mesmo, para ver como ele estudou o priming). Porém, vou dar uma sugestão mais "conservadora" ainda: leia a "Equilibração das Estruturas Cognitivas" do Piaget, que, por sinal, foi escrito bem antes da "fundação" da Escola Cognitivista americana. Mesmo assim, acho este livro muito rico para ilustrar alguns conceitos básicos e para esclarecer sobre como podemos conceber uma estrutura cognitiva (como um esquema) que não é física, mas sim funcional... ainda, que pode pôr em cheque uma de suas afirmações anteriores de que o modelo de causalidade (como se este fosse único e monolítico) defendido no Cognitivismo é o de fenômenos externos acontecendo por conta de variáveis ou estruturas internas. A este respeito, sugiro que dê uma analisada no conceito de equilibração. Até pensei em escrever algo a respeito da equilibração cognitiva aqui, mas acho que minha resposta já está muito longa. Vamos continuando o diálogo e veremos se haverá "pano pra manga"...
    Por fim, desculpe pela troca dos nomes...hehhehehe.
    Bom, eu poderia até dizer que o lapso (não erro) poderia estar associado a um efeito priming, mas prefiro dizer que nosso nível de atenção é extremamente afetado pela privação de sono, especialmente quando estamos trabalhando com atenção dividida... como escrevi a resposta anterior quando estava na cama e após a meia noite, acabei me "embananando" com os dois nomes.

    Obrigado pelo espaço de discussão e apresentação de maiores esclarecimentos. Quem sabe um dia podemos nos encontrar pessoalmente para discutir estas e outras questões... Costumo ter excelentes debates com meus colegas da AEC aqui na Universidade.

    Mais uma vez, parabéns pelo blog!

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  15. Leronardo,

    1. Acho que em um ou outro livro de filosofia que tenho pode haver um desenvolvimento sobre o conceito de "funcionalismo". Será curioso se eu confirmar isso, mas suspeito que o funcionalismo do cognitivismo pode guardar semelhanças com o funcionalismo behaviorista.

    2. Certo! Aprendi isso quando li alguns capítulos do "Encontro com as Ciências Cognitivas" (Broens, Coelho e Gonzalez, 2007).

    3. Obrigado pelas indicações! Espero em breve entrar em contato com esses trabalhos, sobretudo com os do Marcel e do Piaget.

    Sobre o lapso, não precisa se desculpar... De qual universidade você é? Encontre-me no Facebook para mantermos contato, que tal?

    Abraço!

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  16. O problema não é o Freud, são os freudianos. Ele mesmo dizia que o inconsciente (e boa parte da sua Teoria) foi conceituada pela impossibilidade de testar melhor o cerebro em sua época.E assim como ele cortou o conceito de Sub-consciente quando ele percebeu que não era uma idéia válida, provavelmente hj ele já teria diminuido o tamanho do inconsciente

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  17. comecei com um certo intendimento,pois não saco quase nada,mas do pouco que li,vi muitas voltas de uma figura infinita de argumentaçães,horas indo ao principio e horas ao final,acho uma pena tantos textos serem inconclusivos e sem uma verdade absoluta,esta qual estamos longe de chegar,cheguei a pensar que o inconciente e algo que programamos para ser automático,mas existe algo além do inconciênte algo incomum,uma comunicação atipica.

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  18. Daniel, qual sua opinião a respeito de animais terem consciência e terem noção de que vão morrer um dia ?
    Numa aula de Farmacologia surgiu essa discussão. Gostaria de ler seus comentários a respeito

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