domingo, 22 de abril de 2012

Por que deixei de ser cognitivista

Uma resposta à pergunta "Por que deixei de ser cognitivista?" deve, ao mesmo tempo, fazer referência a por que me tornei behaviorista. Embora eu tenha grande apreço por discussões epistemológicas, o pano de fundo desta retrospectiva será debater duas hipóteses que explicariam a minha mudança paradigmática, quais sejam: "Eu deixei o cognitivismo porque eu não o conheço bem" e "Eu deixei o cognitivismo porque fui socialmente reforçado a fazê-lo". Essas hipóteses foram aventadas por um amigo cognitivista por quem tenho apreço e admiração. Parte do que será exposto já foi anteriormente desenvolvido em um saudável e memorável debate que travamos virtualmente. Por fim, esta reflexão tem por finalidade comemorar -- porque tenho estado satisfeito com esse novo estilo de vida -- um ano de prática e elucubrações enquanto behaviorista radical.

História e antecedentes teóricos

Em outubro de 2010, e ainda imerso nas águas cognitivistas, publiquei um texto denominado "Breve defesa ao mentalismo", que figurara como uma resposta às críticas behavioristas que eu vinha recebendo naquela época. Lá, esbocei razões pelas quais a mente e o encéfalo (cérebro, cerebelo e tronco encefálico) deveriam ser os objetos de estudo centrais de uma ciência comportamental. Assim, esforcei-me para defender que os eventos mentais e encefálicos (EMEs) são as variáveis independentes que explicariam a variação das variáveis comportamentais, dependentes, de que teríamos maior interesse. Por exemplo, poderíamos dizer que o comportamento público, como ir à padaria ou fazer certas jogadas no basquete, é explicado por um conjunto de crenças, habilidades e condições emocionais (como o desejo) das pessoas. Pelo nível neurofisiológico, a forma como agimos seria um efeito de certos padrões de atividade do encéfalo. Nesses dois casos, estaríamos adotando uma postura internalista, que prioriza os aspectos internos do organismo (estados mentais ou neurais) como os eventos que causam o comportamento. Pelo que sei, a maioria das abordagens da psicologia e o mainstream da neurociência partilham essa concepção.

Naquela época, eu vinha concentrando minhas leituras na produção de expoentes como Antônio Damásio, um neurologista português, e Steven Pinker, um cientista cognitivista. Pode-se dizer que eu tive mais contato com aspectos amplos e básicos das ciências cognitivas, bem como que eu não visitei apropriadamente a obra dos principais ícones da área. É verdade, por exemplo, que eu pouco li a respeito da terapia cognitiva, que abarca uma série de pressupostos e técnicas cognitivas aplicados à psicoterapia. Para ser honesto, eu só cheguei a folhear, e não a ler completamente, três importantes livros de terapia cognitiva: um de Aaron Beck e dois de sua filha, Judith Beck. Muito pouco, não acham? Apesar disso, boa parte dos estágios e supervisões que tive na graduação -- em psicoterapia e em neuropsicologia -- foram guiados pelas diretrizes cognitivistas.

Pode ser que meu "repertório cognitivês" não estivesse ainda tão afiado, mas eu estava disposto a encarar certos desafios. Eu passei a participar, então pelo Orkut, da comunidade "Análise do Comportamento" ao longo de alguns meses, e por lá entrei em diversos fóruns e discuti abertamente contra "o resto do mundo". Eu carregava particularmente a pompa de que as ciências cognitivas eram não só a vanguarda das ciências comportamentais, mas que também tinham superado, a partir de uma "revolução", as demais abordagens do campo. Convenhamos, essa crença nos traz certa confiança e credibilidade, certo? Certo! E eu passei a frequentar, por convite de um dos camaradas da comunidade, um grupo de analistas do comportamento que faziam -- e ainda fazem -- happy hours mensais em bares e cafés de uma região belo-horizontina chamada Savassi. A partir do momento em que eu me incluí no Círculo da Savassi, e mesmo que ainda como cognitivista, as representações que eu fazia do mundo começaram a se modificar -- o que não foi fácil nem rápido.

Temas como "consciência", "módulos mentais" e "crenças e desejos" eram o prato principal das discussões. Aos poucos, algumas coisas foram ficando claras para mim. Por exemplo, fui compreendendo que aquelas entidades não são mais que constructos -- ou hipóteses sobre variáveis latentes, intangíveis e imaginadas --, bem como que sua existência e atividade precisam, respectivamente, ser justificada e explicada. Mesmo que, no contexto de certos estudos, a invenção de entidades hipotéticas (como a "velocidade de processamento", a "memória de trabalho" e o "fator g de inteligência") seja justificada, as considerações e análises relevantes devem ir além. Em pesquisas que venho lendo atualmente, percebo a carência de perguntas decisivas como estas: "O que controla as entidades hipotéticas que controlam os comportamentos observáveis?" e "Por que há diferenças individuais e grupais nas medidas dessas entidades?". Se essas perguntas não são feitas -- ou não são levadas a sério --, cria-se a sombra de um Eu, de uma mente ou de um cérebro-iniciadores, e a história de um organismo, que pode lançar luz sobre as origens comportamentais, é então ofuscada. Crenças e desejos, módulos mentais e o encéfalo vêm sendo os protagonistas das explicações comportamentais da moda. Dados e princípios velhos, porém básicos e imprescindíveis, foram largados no limbo, e é assaz discutível a proposta de que as novidades metafísicas e técnicas da nova abordagem validam a expressão "revolução cognitiva".

Ainda que a questão acerca das causas do comportamento fosse, e ainda é, o principal motivo das minhas preocupações, outros tópicos espinhosos viviam a me cutucar. Eu não sei se isso é comum entre as pessoas que pensam demais, mas a minha mente tem o hábito de deixar reverberando por tempo considerável algumas perguntas que me incomodam. Eis alguns exemplos: "O que é mente, e o que acrescentamos ao estudo do comportamento ao aceitarmos sua existência?", "Como aspectos do mundo são copiados para a mente?" e "Qual a utilidade com se distinguir coisas mentais de coisas reais?". Como venho aprendendo, um pouco de pragmatismo resolve boa parte dessas questões (que aparentam ter sua origem na ubíqua confusão sobre as perspectivas de primeira e de terceira pessoas). A despeito disso, julgo como válida e útil a tentativa de diferenciar a experiência publicamente compartilhada, de um "mundo fora da pele", da experiência privada, de um "mundo dentro da pele". Só não acho que precisamos inventar uma entidade, a mente, para diferenciar essas coisas.

Aceitar Skinner no coração

"Você ainda vai aceitar Skinner no coração": esta foi uma expressão curiosa e engraçada que eu eventualmente ouvia de um ou outro colega behaviorista. Houve quem tivesse feito certas previsões sobre até quando eu permaneceria abraçado ao cognitivismo, e com uma precisão que se mostrou significativa.

Antes de eu abrir meu coração para aquele velhinho revolucionário, meditei sobre se os princípios behavioristas radicais poderiam dar conta do conjunto de fenômenos que eu vinha estudando -- basicamente, aspectos da inteligência e da personalidade. E, aos poucos, as coisas que eu pacientemente ouvia começaram a fazer mais sentido. Como desenvolvi brevemente em meus textos "Inteligência: capacidade de ser feliz?" e "Uma alternativa ao internalismo", construtos como "inteligência" e "personalidade" não conseguem legítima e satisfatoriamente explicar os comportamentos inteligentes e "personificados". Quando não assumem meras descrições de certas classes comportamentais, são tentativas de fazer um recorte explicativo curto, e por isso limitado, que lança mão de ficções didáticas questionáveis e que não contribuem decisivamente para o que estamos mais interessados: compreender, prever e alterar certos fenômenos.

Se, então, pretendemos fazer da psicologia uma ciência, precisamos -- entre várias outras coisas importantes, é claro -- desenvolver técnicas a partir das quais possamos manipular variáveis. Quando elegemos os EMEs como as variáveis independentes de interesse, estamos diante de um patente e intransponível impedimento prático: não podemos manipulá-los. Os eventos internos não são o tipo de variável que um cientista pode isolar ou regular, mas o tipo de variável que varia ou se altera à medida que são manipuladas variáveis ambientais, externas ao organismo -- e a administração de psicofármacos não constitui uma exceção. Isso não quer dizer que os eventos internos, como crenças e desejos, não sejam importantes. Longe disso, significa que, para modificá-los, precisamos identificar as variáveis que os controlam e compreender que processos (por exemplo, condicionamentos clássico e operante) estão envolvidos em sua origem e manutenção. Assim, a ênfase no contexto, nas tríplices contingências (que envolvem as consequências de um comportamento) e no histórico de relações de um organismo com certos ambientes nos permite lançar as seguintes perguntas: "Quando ou em que circunstâncias um indivíduo pensa A e quer B?" e "Por que, nessas circunstâncias, esse indivíduo pensa A e quer B?". Acreditem: essas perguntas fazem a diferença!

Ao me dar conta do poder explicativo do behaviorismo radical, decidi dá-lo uma nova chance. Aos poucos, fui descobrindo que "todo o campo de processamento de informação pode ser reformulado como mudanças no controle exercido pelos estímulos" (Skinner, 1977/2007). Processar informações é o mesmo que responder de determinadas maneiras, e o que se entende por "informações" pode ser melhor descrito como "propriedades de estímulos". Os cognitivistas estão ainda com certa dificuldade para definir seus objetos e processos centrais, e as metáforas que utilizam, como a da cópia e a do armazenamento, parecem só dificultar as coisas. Se entendemos "informações" como "propriedades de estímulos", fica claro por que não faz sentido dizer que as armazenamos. Parece ridícula a afirmação de que, uma vez que não estão sendo expressos ou apresentados, a contração da pupila, o reflexo patelar e uma cambalhota estão "armazenados". No entanto, o cognitivista não vê problema em afirmar que palavras, imagens e gestos estão guardados em algum lugar do encéfalo ou da mente. Acho importante diferenciarmos eventos ou ocorrências, como os EMEs, de coisas, como livros e alimentos. É como se, em um primeiro momento, reflexos, canções e malabarismos fossem comportamentos que, posteriormente, seriam magicamente convertidos em coisas a ser armazenadas em algum lugar. Um carro parado e desligado não tem seu funcionamento e locomoção armazenados no motor e nas rodas, e eles não fazem cópias ou representações daqueles eventos. Não são os EMEs que ficam "armazenados" ou, um pouco melhor, que "resistem materialmente ao tempo", mas os dispositivos estruturais cuja atividade os definem. A configuração básica desses dispositivos nos é presenteada pelos genes, e suas modificações são sistematicamente produzidas pelos estímulos que os colocam em atividade. Mas esses estímulos e a atividade dispositiva dos quais são função, o comportamento, não são coisas passíveis de armazenamento. Pode parecer estranho à primeira vista, mas é correto afirmar que comportamentos, e não disposições, simplesmente aparecem e desvanecem em razão das circunstâncias.

A partir dessas análises, que vão desde pressupostos ontológicos a aspectos de causalidade, meu cognitivês passou por um lento e gradual processo de extinção. Após, então, ler Sobre o Behaviorismo, livro no qual Skinner (1974/2006) apresenta a filosofia que fundamenta a análise do comportamento, senti-me um pouco mais seguro quanto a me afirmar como behaviorista radical. Não que o meu coração tenha se tornado totalmente skinneriano, mas boa parte dele bate em ritmos que se assemelham ao dos meus colegas behavioristas.

Considerações e reflexões finais

Não se pode negar: o contexto social influencia a filiação que fazemos a uma ou outra abordagem científica, ideologia política ou religião. Também é verdade que a ignorância pode fomentar o distanciamento ou a negação de teorias e concepções que concorrem com as que sustentamos. Na falta de informações relacionadas à teoria da evolução das espécies pela seleção natural, podemos nos ver lamarckistas ou, como é ainda comum nos dias de hoje, criacionistas. Contudo, "ignorância" e "influência social" podem não conseguir explicar completamente o ingresso a, ou o abandono de, um programa de pesquisa. No meu caso, a busca veemente por melhores concepções ontológicas e teorias causais para o comportamento parece assumir o centro da minha mudança paradigmática. É claro que, em certo sentido, encontrar teorias melhores equivale, conforme quero acreditar, a produzir consequências melhores para a sociedade e para mim mesmo. Mas eu não me permito à incongruência de professar crenças com o conveniente intuito de "manter o bom convívio social" (e o meu ateísmo manifesto, às vezes ativista, pode ser uma postura que representa bem o que quero dizer). Não nego que eu não conheço profundamente o cognitivismo, mas acredito que já tenho bons motivos para não voltar a vestir sua camisa.

Antes de finalizar, vale dizer que, embora satisfeito, eu não estou plenamente feliz com o behaviorismo radical. Como deve ser para qualquer doutrina, há ainda o que ser desenvolvido em termos filosóficos e -- no âmbito da análise do comportamento -- práticos. Tendo degustado enumeráveis coisas interessantes no mundo cognitivista, eu fico a procurar formas de assimilá-las ao "behaviorês" (um intercâmbio que é comum entre programas de pesquisa concorrentes). Crenças e desejos não nos põem em dificuldade (Lazzeri & Oliveira-Castro, 2010), e construtos como "memória de trabalho" e "velocidade de processamento" poderiam ser tranquilamente explorados, apropriados e aperfeiçoados. Para que o behaviorismo possa competir por um espaço ainda melhor na neurociência, intuo que será necessário o investimento em uma nova linha de pesquisa, a saber, a que se dirigirá para o estudo dos "dispositivos estruturais do comportamento" (basicamente, estudos sobre estrutura-função). Diante disso, resta saber se a comunidade behaviorista radical está disposta a expandir as fronteiras e, quem sabe, a modificar certos pressupostos que poderiam contrariar a promoção dessa empreitada.

No mais, não posso deixar de ressaltar que eu ainda estou em fase de descoberta do behaviorismo. A prática clínica e a participação em grupos de discussão e em um ou outro evento têm contribuído para a minha exploração, mas me falta estabelecer mais contato com pesquisas e modelos teóricos recentes da área. E, mesmo que a minha expectativa venha sendo a das mais otimistas, eu não terei medo de projetar objeções e de propor novidades.

Os psicólogos cognitivistas estudam [as] relações entre organismo e ambiente, mas eles raramente lidam com elas diretamente. Em vez disso, eles inventam substitutos internos que se tornam objetivo de estudo de sua ciência. Tendo mudado o ambiente para dentro da cabeça na forma de experiência consciente e o comportamento na forma de intenção, desejos e escolhas, e tendo armazenado os efeitos das contingências de reforçamento como conhecimento e regras, os psicólogos cognitivistas colocam tudo isso junto para compor um simulacro interno do organismo, nada diferente do homúnculo clássico. [...] O apelo para estados e processos internos cognitivos é um desvio de atenção que pode ser responsável por muitas de nossas falhas para resolver nossos problemas (Skinner, 1977/2007).


Referências

  • Lazzeri, F., & Oliveira-castro, J. M. (2010). Termos psicológicos disposicionais e análise do comportamento. Princípios, v. 17, n. 28.
  • Skinner, B. F. (2007). Por que eu não sou um psicólogo cognitivista. Revista Brasileira de Análise do Comportamento, vol. 3, n. 2. (Originalmente publicado em Behaviorism, Vol. 5, n. 2., 1977.)
  • Skinner, B. F. (1974/2006). Sobre o behaviorismo. São Paulo: Cultrix.

14 comentários:

  1. Oi Daniel! Gostei muito do texto, mas fiquei com algumas questões:
    "Parece ridícula a afirmação de que, uma vez que não estão sendo expressos ou apresentados, a contração da pupila, o reflexo patelar e uma cambalhota estão "armazenados"."
    A contração da pupila e o reflexo patelar não são aprendidos, necessitando apenas da presença das estruturas e condições que permitam que estes ocorram para que possam ocorrer. Ter um joelho, uma patela enervada, músculos com uma tonicidade mínima, esse tipo de coisa, estão no organismo.
    "No entanto, o cognitivista não vê problema em afirmar que palavras, imagens e gestos estão guardados em algum lugar do encéfalo ou da mente."
    Palavras não nascem junto com o organismo. Alguma forma de reorganização nas estruturas do sistema nervoso central se faz necessária para que as palavras possam ser compreendidas e emitidas. Assim como outros comportamentos, inclusive a cambalhota.
    Se a organização que permite um organismo maduro emitir palavras for perturbada, as palavras deixam de ser emitidas. Da mesma forma que se as condições preexistentes que permitem o reflexo patelar, se forem perturbadas, podem impedir o mesmo de acontecer.
    Essas configurações que tomam as estruturas internas do organismo, em especial aqui, do sistema nervoso central, e que permanecem no transcorrer do tempo, não são uma forma de armazenamento?

    Outra observação que faço é: "O apelo para estados e processos internos cognitivos é um desvio de atenção que pode ser responsável por muitas de nossas falhas para resolver nossos problemas". De 1977 para cá, a Psicologia Cognitiva vem resolvendo muitos problemas e trazendo muitas respostas. Não tanto no campo teórico, mas muito no campo prático, na forma da Psicoterapia Cognitivo-Comportamental.
    Não que isso seja motivo para deixar de questioná-la, ou para deixar de buscar melhores explicações. Mas muitos dos problemas práticos, cruciais, da Psicologia, vêm sendo abordados com sucesso pela "TCC".

    Acredito que um dia Cognição e Comportamento irão se encontrar e resolver suas diferenças de linguagem, e que tanto no ambiente de pesquisa e construção do conhecimento teórico, quanto no ambiente prático, clínico, todos irão sair ganhando.
    Atualmente, duvido que algum cognitivista acredita na mente como um homúnculo ou como uma nuvenzinha imaterial. Assim como behavioristas que possuem um bom conhecimento sobre fisiologia sabem que alguns eventos têm início no interior do organismo, como a fome por exemplo: quer haja ou não um estímulo externo, em algum momento - determinado endocrinamente - a fome será sentida.
    Acho que algumas afirmações do BR dificultam essa aproximação, como a afirmação de que "não existe memória". Em outras ocasiões já falei, de forma análoga, que equivale aos físicos afirmando que "não existe cor".
    Bom, como não serei eu, com meus comentários, que irei resolver nada, vou parando por aqui.
    Mais uma vez, parabéns pelo texto, muito bem escrito e argumentado. Espero que a tua imersão no BR te leve a encontrar as melhores respostas às perguntas sobre a mente colocadas lá no início da postagem.

    Ah, e como sugestão, queria ver um post sobre evocação de "imagens mentais" explicadas pelo BR. Não trata-se de um desafio, tenho certeza que o BR possui linguagem para explicar isso, mas gostaria de saber como fica o aspecto do "armazenamento" com relação a elas. Por exemplo: há anos não vou na casa do meu avô (casa que nem existe mais), mas posso fechar meus olhos e visualizar cada canto da casa, sentir os cheiros, literalmente ver os móveis etc. Isso não está armazenado em algum lugar?

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    1. Grande Cláudio! Obrigado por participar! Vamos lá...

      Primeiramente, com certeza a cognitiva já vem tentando lidar com alguns pontos que eu problematizei ao longo do texto. Isso é ótimo! Parece que o pessoal da "cognição situada", por exemplo, está fazendo um trabalho legal. Mas eu ainda preciso conferir de perto.

      "Essas configurações que tomam as estruturas internas do organismo, em especial aqui, do sistema nervoso central, e que permanecem no transcorrer do tempo, não são uma forma de armazenamento?"

      Então, cara, esse é o ponto que eu tentei debater no texto, e que realmente é complicado. O reflexo, enquanto um "evento comportamental", não está armazenado no dispositivo estrutural que você citou. O reflexo é um evento que acontece ATRAVÉS desse dispositivo, e suas causas podem ser descritas em termos imediatos (estimulação patelar) e históricos (contingências de sobrevivência da espécie). Dizer que o reflexo está armazenado equivaleria a dizer que um organismo possui os dispositivos que, em certas circunstâncias, se comportará de forma a DEFINIR o reflexo. É isto: o reflexo não é o dispositivo, mas a resposta/modificação deste em razão de um tipo de estimulação. O reflexo é um evento/uma ocorrência, e não uma coisa (dispositivo). O bater do coração também pode ilustrar as diferenças que estou tentando delimitar. Faz sentido pensar que as batidas estão armazenadas em algum lugar?

      No meu ponto de vista, o mesmo pode ser dito quanto aos eventos neurais e mentais, mesmo que tenham sido adquiridos ao longo da vida. Quando eu não estou vendo a ou lembrando da casa do meu avô, aquelas imagens não estão armazenadas. Há, sim, dispositivos neurais que, na ocasião de certos estímulos, respondem de forma a configurar a experiência/resposta "ver a casa do meu avô". Damásio (2011) afirma que esses dispositivos são constituídos por zonas neurais associativas, as quais controlariam a construção das "imagens mentais". Mesmo que queiramos dizer que esses dispositivos estão "armazenados", parece-me melhor/mais perto da realidade dizer que eles simplesmente SE MODIFICAM a partir das relações que os organismos estabelecem com o mundo. E, como sugere Damásio, essas "zonas dispositivas" são parte do presente que a seleção natural nos concedeu.

      "Acredito que um dia Cognição e Comportamento irão se encontrar e resolver suas diferenças de linguagem, e que tanto no ambiente de pesquisa e construção do conhecimento teórico, quanto no ambiente prático, clínico, todos irão sair ganhando."

      Isso é o que eu espero, Cláudio! Alguns colegas acham que essas discussões epistêmicas não nos levam muito longe, mas eu creio que é a partir delas que podemos de fato alavancar as mudanças que queremos ver.

      Um abraço!

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  2. Vc tocou em 2 pontos cruciais pra minha historia, tbm:

    1) praticidade... Enquanto os cognitivistas costumam lidar (ou falar sobre) variaveis que eles não conseguem manipular, os behavioristas se atem a contingencias bem descritas.

    2) o fato da comunidade behaviorista radical precisar "expandir fronteiras"... O Catania já fala disso desde a 1a edição do "Aprendizagem", i.e., de integrar abordagem estrutural + funcional no BEhaviorismo.

    ----------------

    No mais, permita eu dar um breve relato de como foi q eu me tornei um behaviorista radical:

    1. meus professores behavioristas, na graduação, não eram pessoas simpáticas. Nem os colegas da abordagem, tbm. E ao mesmo tempo, todos os "caras legais" falavam mal da abordagem. POr isso não estudei NADA de Behaviorismo na graduação. Essa é a verdade.

    2. no último ano (2004) li Steven Pinker e todos diziam que esse lance de Cognição + Evolução era A resposta cientifica pra psicologia. Entrei na onda.

    3. dois anos depois de formado (2006) comecei a notar que o Cognitvismo não era uma abordagem pra valer, coesa e de proposta bem consensada, explicadinha. Era mais um conjunto de mini-abordagens. Isso ficou suspeito, mas fedeu mesmo qdo li um livro do Sternberg onde TUDO, TUDO, TUDO tinha 4 ou 5 teorias cogntivistas distintas, e nem sinal de qual era a mais eficiente.

    4. Por influencia do forum de AC do orkut, li o primeiro capitulo de "Questòes Recentes de Analise Compt", onde o Skinner explica o que é cognição do ponto de vista comportamental. Depois dessa leitura, algo mudou pra mim, pra sempre. Eu estava abrindo a caixa preta da cogniçao, e ela nao estava dentro de mim: eu estava dentro dela.

    5. Descobri que as principais correntes do Cognitivismo estao se aproximando DEMAIS da proposta compt. Desde o pessoal da terapia cog-compt, que chupinha demais o behaviorismo sem nunca assumir; até o pessoal da Cognição Situada, que é um plágio descarado da proposta do Skinner. Então pensei -> "Aí tem, viu? Os Cog imitam os Compt, mas o oposto não acontece".

    6. Descobri que a abordagem compt tinha eficácia através do método ABA pra autismo, bem como de outras aplicações tecnologicas, especialmente pra ensino. Esse lance da eficácia foi a gota dagua: daí aderi ao behaviorismo

    IMPORTANTE -> E se estou na abordagem behaviorista até hoje, é pq ela realmente funciona na prática. Pq se fosse por questoes pessoais, sociais, etc, eu ja teria pulado fora faz tempo, pq os behavioristas sempre foram bastante hostis comigo desde o inicio até os dias de hoje. Praticar o behaviorismo, pra mim, é algo que tem por custo ser punido, dadas as minhas ideias inovadoras de aplicações. Se eu topo essa aversividade toda, é pq, pra compensar, há ganhos imensos, maiores em efeito que o lado negativo (oriundo da comunidade behaviorista brasleira, nao da abordagem em si).

    Abraço, Daniel !

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    1. Legal, Alessandro! Vejo que há elementos em comum na nossa história... Mas ainda preciso ler o "Questões recentes...".

      E esse lance de ser behaviorista é de fato meio difícil. Ontem mesmo, quando uma cliente entrou no consultório (da Unimed, e não no particular), viu o "Sobre o behaviorismo", que estou relendo, e comentou: "Nossa, behaviorismo? Boa sorte para você!". Coisas assim são frequentes, e principalmente no meio acadêmico e em conversas e boteco.

      Valeu por compartilhar! Abraço!

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    2. isso se dá, cheguei a conclusão, porque pensar comportamentalmente é muito contra-intuitivo

      diversas sacas sagradas são sacrificadas...

      vc puxa um pano que estava por cima dos móveis e descobre que não tinha móveis nenhum, apenas pano suspenso no vazio

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  3. Parabéns pelo texto, Daniel!

    Eu nunca fui cognitivista, embora ainda trabalhe no meio - já faço avaliações neuropsicológicas, por exemplo. Acho que o cognitivismo deixa de ser tão encantador quando questões como as suas surgem: afinal de onde vem o controle do comportamento, de onde vem as diferenças individuais, o que é essa entidade que controla etc. O behaviorismo, por sua vez, ainda dá respostas vagas às questões levantadas pela neurociência. As duas propostas não são complementares, como vejo muita gente dizendo, pois os pressupostos epistemológicos são irreconciliáveis, mas temos o que aprender com a prática dessas duas áreas, sem dúvida, como você sintetizou bem.

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    1. Isso aí, Aline! E um dos meus intuitos, como que um projeto paralelo aos meus principais, é aproximar mais o behaviorismo/AC da neurociência. Acho que uma conversa bacana ainda vai sair daí!

      Abraço, e obrigado pela participação!

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  4. Claudio,

    Quando você vê e chega a sentir o cheiro da casa do seu avô, você está se comportando de modo semelhante aos quais se comportou quando viu ou sentiu o cheiro da casa de seu avô. Ver e sentir cheiros são comportamentos. Podemos ver na ausência da coisa vista e sentir cheiros na ausência de estimulação olfativa.

    O tempo todo estamos sendo modificados em nossas relações com o mundo. Isso acontece mesmo quando estamos dormindo, sonhando etc. O que nos acontece nos modifica, modificando também os modos como se darão futuras relações de controle recíproco entre nosso organismo e o mundo. Se eu passar por você na rua amanhã, poderei olhar para você, mas provavelmente passarei direto sem lhe cumprimentar. No entanto, se eu trocar poucas palavras frente a frente com você hoje, é bem provável que eu lhe diga um “oi” ao avistar seu rosto amanhã. O estímulo visual “seu rosto” controlará meu responder de um modo diferente de como controlava antes.

    Quando, após vê-lo, consigo vê-lo mesmo em sua ausência, isso não significa que estou acessando uma informação gravada em meu cérebro. Significa que meu organismo, que foi modificado em relações com o mundo em ocasiões em que vi seu rosto, comporta-se agora de modo semelhante a como me comportei ao vê-lo, porém agora na ausência da estimulação visual “seu rosto”. Imagine o gosto de melancia. Conseguiu? Agora imagine o gosto de abacaxi. Provavelmente conseguiu também.

    O que você acabou de fazer não foi acessar as informações “gosto de melancia” e “gosto de abacaxi” em seu cérebro. Você é um organismo que foi modificado em muitas e muitas relações com o mundo, de modo que, agora, diante das estimulações visuais MELANCIA e ABACAXI, responde sentindo o gosto dessas frutas.

    Quando você vê a casa de seu avô, certamente há estimulações antecedentes que são imediatamente responsáveis pelo seu comportamento de ver na ausência da coisa vista (e, claro, também várias relações prévias que você manteve com o mundo e que fizeram de você quem você hoje é). É possível manipularmos essas condições antecedentes, estabelecendo contextos para nosso responder perceptual na ausência de estimulações perceptuais. Por exemplo, você pode pensar em várias frutas e sentir seu gosto ou cheiro, ou pode propor a si mesmo uma tarefa bem simples: lembrar-se do rosto de todas as moças ruivas que conhece ou conheceu.

    Enfim, é um assunto bem interessante, mas que, tratado de modo assim breve, pode parecer um pouco superficial. Espero ter despertado seu interesse por mais leituras sobre como o assunto é tratado em uma perspectiva analítico-comportamental.

    Abraço,

    Vinícius

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    1. Ô, Vinícius, valeu pela ótima descrição do "ver na ausência da coisa vista"! Tô imaginando que o Cláudio vai querer saber COMO é que isso funciona num nível imediato, e descrever esse funcionamento pode requerer fazer referência a algo como "dispositivos comportamentais" (DCs). Essas dispositivos seriam a configuração de certas estruturas do organismo, como das redes neurais, as quais se modificam com a experiência. Os DCs seriam equivalentes às memórias, enquanto COISAS, que os cognitivistas falam. "Acessar" esses dispositivos seria, na verdade, colocá-los para trabalhar, para RESPONDER, e isso só seria possível na ocasião da presença de certos estímulos antecedentes.

      O que acha dessa ideia?

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  5. Obrigado pelos comentários, pessoal! Mais tarde, porque hoje está sendo um dia corrido, passo aqui e respondo a todos.

    Abraços!

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  6. Renan Maia (renanpmaia@gmail.com)24 de abril de 2012 16:26

    Cara, admiro o fato de você ser alguém que pensa. Acredite, isso é raro. Porém acho que antes de tratar de algumas questões que você tratou aqui, tais como a teoria da mente, representações, realidade objetiva e formal, é importante ler os pensadores que lançaram as bases para os cognitivistas, que são, em geral, os racionalistas tais como Descartes e Spinoza, e os idealistas, de Kant a Hegel. É evidente que, quem se baseia em uma teoria já fundamentada, não vai se preocupar em fundamentar as mesmas coisas que ela já fundamentou. Vai apenas admitir suas influências e partir de onde ela parou, tal como fez Piaget e todos os grandes teóricos da Psicologia, incluindo os behavioristas. Bom, estou partindo de pressuposto de que você não os leu pelo simples fato de que há questões que você levanta que há muito já foram tratadas pelos filósofos sobre os quais se basearam esses grandes sistemas da Psicologia. Se você se contentar só com o que a psicologia diz, sem saber de onde veio aquilo, de que maneira aquela concepção foi construída anteriormente, de fato você não achará muitas respostas e não irá muito longe em teoria alguma, pois dificilmente algum teórico vai ficar repetindo e re-fundamentando algo que ele já foi fundamentado por outro e que ele deixou claro que tomou por verdadeiro. Minha opinião. Abraço!

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    1. Sua opinião é muito importante, Renan! Realmente preciso voltar a essas bases filosóficas. A filosofia que tive na faculdade era muito fraca, e só recentemente tenho começado a correr atrás do prejuízo. Obrigado pela dica, e espero que, num futuro breve, eu possa ter um repertório filosófico melhor para abordar as questões que tanto me incomodam.

      Abraço!

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  7. Daniel,
    foi muito bom ler este texto seu! Para mim,que acompanhei seus primeiros questionamentos epistêmicos acerca da mente e dos fenômenos humanos,foi como ver o produto de um processo de amadurecimento intelectual.Produto este de comportamentos bastante consistentes para chegar aqui,onde está agora,embora muito ainda tenha apercorrer(a vida toda,talvez).
    Posso dizer que me sinto orgulhosa de ti!
    Continue nesta trilha(que estou certa que continuará)!
    Bjos,
    Hérika.

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    1. Fico contente por tê-lo lido e comentado, Hérika! Como já te disse outras vezes, você foi muito importante para o meu "amadurecimento epistêmico". Espero que possamos em breve discutir mais e contribuir, juntos ou não, para o desenvolvimento do behaviorismo radical e da análise do comportamento. Mantenhamos contato, mestre!

      Beijo grande!

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